Preconceito Linguístico
Enviada em 31/12/2018
A língua surgiu a partir do ímpeto humano de estabelecer canais comunicativos mais eficientes e que melhor expressassem suas emoções. Nesse contexto, a formação do português brasileiro, diferentemente do que ocorreu em outras línguas, se deu mediante a confluência de um mar de outras línguas, tendo o português de Portugal como base maior. Hodiernamente, essa diversidade dentro do idioma, juntamente às disparidades sociais, tem sido utilizada como ferramenta discriminatória, o que configura o preconceito linguístico vigente no Brasil.
Em primeira análise, cabe pontuar que em meio a uma vastidão territorial de níveis continentais, composta por regiões e sub-regiões - as quais apresentam suas singularidades históricas, culturais e sociais - as formas de expressão da língua sofrem variações de um lugar pra o outro. Esse fator, que deveria ser encarado como um fenômeno enriquecedor, não só do léxico, como também da própria cultura nacional, torna-se pretexto para a disseminação de preconceitos direcionados a determinados sotaques, gírias e regionalismos. Isso fica evidente ao analisar a estereotipação do “modo de falar nordestino” nas telenovelas, havendo uma equivocada generalização deste a todo povo dessa região, além de, frequentemente, associa-lo a pessoas grosseiras e sem educação.
Outrossim, além dos imbróglios relacionados às variantes regionais, evidencia-se que o preconceito linguístico também se faz presente no âmbito das diferenças sociais. Isso se deve ao fato de que àqueles- ditos “civilizados”-, que tiveram acesso a uma educação de qualidade, apregoam a ideia de “certo” e “errado” quanto ao uso do léxico. Nesse sentido, a forma correta de falar seria aquela que segue a risca os preceitos estabelecidos pela gramática normativa, o que não leva em conta a culturalidade do indivíduo, seu nível de instrução e suas vivências. Tal conjuntura, de certa maneira, é corroborada tanto pela desigualdade no acesso à educação, quanto pela forma como a gramática é imposta aos alunos em sala de aula, gerando uma aversão à matéria, por parte dos discentes.
Entende-se, portanto, que o contornamento dos desafios referentes ao preconceito linguístico, no país, perpassa por uma universalização das variantes existentes no idioma, bem como por alterações na forma de trabalhar a Língua Portuguesa nos ambientes de ensino. Destarte, é mister que o Ministério da Educação(MEC), com o apoio do Ministério da Cultura, promovam eventos que tratem das variantes linguísticas de cada região do país, dando ênfase às conotações históricas que as moldaram, a fim de mitigar a estigmatização e o preconceito. Ademais, é imperioso que o MEC viabilize reformulações na base curricular no que diz respeito ao ensino da gramática no âmbito escolar, não restringindo-o à fixação de regras, mas sim atrelando-o às vivências dos alunos.