Preconceito Linguístico

Enviada em 02/11/2018

Em “Jeca Tatu”, obra de Monteiro Lobato, o protagonista que dá nome ao livro é uma construção caricata do homem campesino, representação do atraso que se convencionou associar ao falar caipira. Distante de mera ficção literária, padrões sociais arraigados persistem, ainda hoje, em uma campanha contra as variantes de nosso idioma. Assim, urge explicitar os paradigmas humanísticos e valorativos latentes à problemática, de forma que, explorando-os, seja tangível dissolver as mazelas da exclusão linguística.

Em primeiro lugar, convém analisar a importância do campo linguístico para a estruturação do ente social. De acordo com o psicólogo Vygotsky, a linguagem é o fator que concede ao homem a possibilidade de compreender e interpretar o mundo a seu redor. Nessa perspectiva, privar indivíduos da expressão pessoal é não apenas lhes cercear a criticidade, mas tolher a livre manifestação de suas individualidades. Com efeito, as escolas, desprezando as construções particulares de seus discentes, difundem a gramática normativa como única vertente válida e correta, de forma a invisibilizar e diminuir quaisquer outros modos de expressão.

Ademais, cabe destacar o caráter cultural do falar, cujas marcas valorativas de poder instigam atitudes preconceituosas. Consoante a Saussure, a fala não pode ser entendida como estática ou una, uma vez que é ela um ente vivo, transformado constantemente pelas interações sociais. Nesse ínterim, a esfera de valores e formações distintas peculiares ao Brasil torna, também, nossa língua igualmente móbil e diversa. Tal condição enriquecedora, que deveria ser valorizada é, no entanto, responsável por acentuar segregações, uma vez que, dotada de poder, apenas as classes dominantes têm sua expressão linguística cultuada, se sobrepondo oralmente às demais pelo prestígio.

Torna-se evidente, portanto, a necessidade de discutir com maior profundidade as questões tangentes ao reconhecimento de nossa riqueza linguística. Faz-se imperioso que instituições de ensino, apoiadas pelo Ministério da Educação, utilizem seu inquestionável papel formador no sentido de salientar o valor da pluralidade verbal. Para tanto, cabe a tais organizações instituir planejamentos pedagógicos cujo enfoque seja a disciplina de Língua Portuguesa, investindo na formação continuada de professores, com o fito de atualizar as metodologias e o olhar sobre a transmissão da matéria, não mais restrita à pura gramática. Concomitantemente, na seara social, aulas de Antropologia podem contribuir com aprofundamentos acerca da notável formação cultural brasileira, suas interferências em nosso falar e a importância de tamanha diversidade em nosso conceito identitário. Dessarte, será tangível dissipar pressupostos que segregam e rotulam inúmeros “Jecas” na atualidade.