Preconceito Linguístico

Enviada em 02/11/2018

A obra “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, conta a história de retirantes nordestinos, que fogem do castigo da seca. No enredo, Fabiano, chefe da família, sente-se como um animal, por não ter domínio da língua padrão. Embora tenha sido publicada no século passado, essa obra literária retrata também uma intolerância que se mantém na atualidade: o preconceito linguístico. Nesse aspecto, fatores políticos e socioculturais contribuem para manutenção do problema.

A princípio, sabe-se que o Brasil é um país multicultural, onde povos nativos, africanos e europeus contribuíram para a construção de uma identidade complexa. Contudo, ao observar a dinâmica cultural, percebe-se que há uma valorização da norma culta da língua português, fenômeno que se materializa no preconceito linguístico. A continuidade desse problema, na questão política, se faz presente desde o período colonial, no qual o governo proibiu o uso das línguas gerais — nativas — nas escolas e, consequentemente, na colônia. Hodiernamente, essa prática é refletida em meio a população, uma vez que nas escolas são ensinadas regras sólidas da gramática normativa, que excluem qualquer variedade da língua falada no Brasil. Outrossim, um fator que fomenta tal prática é o contexto sociocultural.

Segundo o sociólogo francês Émile Durkheim, na obra “As Regras do Método Sociológico”, o fato social é caracterizado por ações e pensamentos exteriores coercitivos ao indivíduo. Logo, infere-se que, no processo histórico brasileiro, o domínio da língua formal foi determinante na formação de classes e, por conseguinte do preconceito. Além disso, a existência da norma padrão baseada no português erudito, que torna a língua homogênea, corroborou a intolerância existente, visto que suas variantes foram desprezadas. Sob esse viés, a construção de estereótipos foi reforçada, ora pelo acesso precário à educação, ora pela linguagem regional. Dessa forma, pessoas de várias regiões brasileiras são supressas e hostilizadas por se expressarem de uma forma diferente da exigida pela classe dominante.

Urge, portanto, que a sociedade e as instituições públicas cooperem para mitigar o preconceito linguístico. Logo, o Poder Legislativo deve criar uma lei que torne crime o preconceito linguístico, com intuito de atenuar esse impasse. Ao MEC, por sua vez, compete reformular o currículo do ensino básico e incluir o ensino das variantes da língua, por meio de cartilhas e atividades lúdicas, a fim de que as crianças cresçam e respeitem as diferenças existentes. Ademais, cabe ao governo federal fornecer verbas às mídias sociais, para criação de campanhas elucidativas, para debater sobre o tema e informar sobre os prejuízos ocasionados pela discriminação linguística. Destarte, esse triste aspecto retratado na obra regionalista “Vidas Secas” não fará mais parte do contexto brasileiro.