Preconceito Linguístico
Enviada em 04/11/2018
A língua é importante mecanismo para a formação social, haja vista que permite a comunicação e a troca de informações entre indivíduos. No entanto, observa-se que, em muitos casos, o conhecimento da linguagem normativa, isso é, a língua culta, é usado como parâmetro para perpetuar, ao longo do tempo, preconceitos e formas de dominação daqueles que falam de forma “incorreta"
Durante a colonização portuguesa no Brasil, uma das características que enfatizava a ideia, deturpada, de superioridade do colonizador europeu, era a negação da língua indígena, fator que obrigava os índios, em sua noção de inferioridade, a aprenderem o português introduzido pelo ser dominante. Além disso, a constituição de 1891, implantada durante o governo de Marechal Deodoro da Fonseca, excluía da participação popular os analfabetos, ou seja, aqueles que não soubessem o “correto” uso da língua, seja falada, seja escrita. Tal resgate histórico permite mostrar como a gramática normativa foi utilizada como precursora da legitimação de diversas formas de dominação.
Outrossim, é importante destacar que tal cenário mencionado encontra espaço ainda hoje para se manifestar. De acordo com Marcos Bagno, linguista brasileiro, a língua é como as águas de um rio, enquanto a norma culta assemelha-se a uma grande poça de água parada. O autor utiliza tal comparação a fim de evidenciar a diferença entre a língua falada e aquela gramaticizada; enquanto a primeira modifica-se diante da região, da idade e do grupo social ou do contexto ao qual o falante está inserido, a outra é estática e atende a situações nas quais a formalidade é necessária. Diante disso, é possível perceber que muitos indivíduos negam a pluralidade de manifestações da língua falada, a fim de se manterem num grau mais elevado de “superioridade”.Prova disso, por exemplo, é a manutenção e a ampliação da desigualdade e do preconceito social, tendo em vista que muitos indivíduos da elite intelectual do país, que corresponde à parcela economicamente mais rica, associam, à imagem do pobre, aquele que não sabe o português tido como “correto”, sendo assim, classificado como inferior.
Diante da lógica abordada, torna-se clara a necessidade de intervir na problemática em questão, a fim de diminuir os conflitos por ela criados. Jürgen Habermas, sociólogo alemão, destaca que o diálogo é tido como um mecanismo eficaz para a mudança de paradigmas. Diante disso, cabe às escolas, importantes espaços na formação educacional e humana dos indivíduos, debater, por meio de palestras, sobre a língua e sobre a sua pluralidade de manifestações no país, enfatizando a diversidade cultural aqui presente, buscando, assim, levar o jovem, desde o início de sua formação, a compreender tal complexidade e riqueza da cultura brasileira e a respeitar as inúmeras formas do fazer comunicativo.