Preconceito Linguístico
Enviada em 29/01/2019
Em julho de 2016, Guilherme Capel foi afastado do trabalho após publicar uma foto em sua rede social. Na imagem, o médico exibia um receituário com o seguinte dizer: “Não existe peleumonia e nem raôxis”. A frase fazia referência à fala de um paciente atendido anteriormente. A relevância da linguagem na cultura humana não se restringe ao âmbito da comunicação. Expressão da identidade de um povo, a língua se constitui como uma importante ferramenta de integração social. O Movimento Pau-Brasil, emergido na primeira fase do modernismo, defendia a demonstração da diversidade cultural e linguística do país por meio da locução espontânea e destituída do formalismo. Entretanto, quase um século após a eclosão do manifesto, observa-se a persistência de mecanismos responsáveis pela perpetuação do preconceito linguístico.
A imposição da Língua portuguesa na colonização do Brasil foi determinante para a formação de uma ideologia exclusivista que se conserva até os dias atuais. Em Vidas Secas, Graciliano Ramos retrata a intolerância sofrida por Fabiano, um vaqueiro nordestino que possui dificuldades para se expressar conforme a norma padrão. No romance, a fala do personagem é ridicularizada e se concebe como um elemento indicativo de sua condição social. Nesse sentido, a língua perde sua função integrante e assume um papel de intransigência. Observa- se, portanto, que oficialização de uma determinada variedade linguística é responsável por uma auto-rejeição dialética dos que não a empregam e pela promoção de uma discriminação por parte das camadas sociais dominantes.
Outro ponto relevante, nessa temática, é o conceito de capital cultural. Segundo Pierre Bordieu, o acúmulo de capital financeiro proporciona uma maior retenção de capital cultural. Assim, os indivíduos pertencentes às classes sociais mais favorecidas impõem sua cultura sobre a classe dominada. Uma análise histórica revela que, na Índia Antiga, o estudo da gramática era reservado a uma casta sacerdotal, encarregada de preservá-la pura, intacta e longe do contato infeccioso dos párias.
Diante do exposto, faz-se necessário que a Escola promova a formação de cidadãos conscientes. Cabe, portanto, ao Ministério da Educação a elaboração de uma matriz que realce os efeitos da discriminação e se comprometa na luta contra as desigualdades. Nesse sentido, é imprescindível que o órgão promova cursos a fim de que os professores estejam a par dos avanços das ciências linguísticas. Somado a isto, compete à mídia fomentar o interesse da população pelo tema por meio campanhas de conscientização e propagandas. Destarte, a Linguagem deixará de vista como a disciplina do certo e errado e reassumirá seu verdadeiro encargo que é o de esquadrinhar o funcionamento da mente humana por intermédio dos materiais linguísticos.