Preconceito Linguístico
Enviada em 18/02/2019
O buraco é mais embaixo
Os dialetos das diversas tribos indígenas, no século XVI, mesclaram-se com o antigo português de Portugal e, ao longo dos mais de 500 anos de nação consolidada, as palavras foram mudando e se adequando ao contexto e à época. O preconceito linguístico, por sua vez, se manifesta através de uma elite acadêmica que nega os princípios da gramática brasileira: a diversidade das palavras e a contribuição para a cultura nacional.
As crianças, desde a introdução escolar, aprendem a escrever e falar segundo à norma culta. Justamente por estarem imersas em ambiente acadêmico, devem ater-se à escrita padrão, mas com a fala, como diz a gíria popular, o buraco é mais embaixo: desde os primórdios, falar era pautado na necessidade de comunicação para sobrevivência. Hoje, a cobrança da norma culta na fala interfere até nas relações de classes. De acordo com O Globo, 50% da população tem apenas o ensino fundamental completo e, quando um indivíduo limitado academicamente é repreendido, estimula-se a superioridade intelectual das classes privilegiadas, associadas à inteligência. As desfavorecidas, então, são ligadas à fala “errada”.
Além disso, as variações da língua comprovam a diversidade cultural existente: de acordo com o CENSO, há mais de 270 dialetos no Brasil. Julgar aquele que foge ao padrão acadêmico é negar-se à riqueza de diferenças na sociedade. Aliás, a gramática estuda, explica e especifica termos da linguagem conotativa. Logo, criticar o que originalmente é estudado - as palavras - é apelar para a vaidade linguística em mão de contribuir com a disseminação e enriquecimento das mesmas.
Dessarte, medidas que visam solucionar o preconceito linguístico são essenciais. Para tal, une-se os âmbitos público e privado, com o governo incentivando em sua coletânea livros como O Pagador de Promessas, de Dias Gomes, que usa as mais variadas gírias baianas no decorrer do enredo, em prol do conhecimento da riqueza linguística nacional e do combate aos estereótipos dialéticos. Além disso, o setor privado e as grandes corporações midiáticas devem contar com programações que apresentem as diversas formas de fala, justamente por serem influenciadores sociais, visando habituar a população, ainda conscientizá-la, com a diversidade que o Brasil apresenta.