Preconceito Linguístico

Enviada em 09/03/2019

“A fêssora pediu para eu ler na frente da classe, e uai sô,eu fui! Mair num intendi purque todos caçoaram e riram de minha pessoa,num vo mair na escola. Me senti um burro” Essa narrativa fictícia embora verossímil expõe a situação de um aluno proveniente do interior que possui variações na oralidade e escrita das palavras, e denuncia também a rejeição dos colegas de classe por meio das risadas depreciativas.

Em primeiro lugar, é importante destacar que, embora todos os brasileiros sejam falantes da língua portuguesa, ela apresenta diversas particularidades no contexto regional, social, etário e histórico. Logo, isso torna claro que a linguagem está em constante metamorfose, e os responsáveis pelas mudanças são os próprios oradores. Neste cenário a norma culta na realidade é o conjunto de práticas linguísticas pertencentes a um lugar ou classe social, o filósofo Marcos Bagno diz que “Não há maneira certa ou errada de se comunicar” para ele, o preconceito na língua fez com que seus indivíduos se sintam humilhados ou intimidados com a possibilidade de cometer um erro de português.

Em segundo lugar, isso não significa que a norma culta deve ser abolida das escolas. Longe disso, o educador é a base de todas as relações sociais, o papel dele é ensinar, orientar e também compreender que há pluralidade nas escritas e oratória. A dominação da norma culta é um instrumento de ascensão social, essa ideia advém do vasto quadro de desigualdade social no país, principalmente no Nordeste, que é retratado como um local que os falantes são grotescos, rústicos e atrasados, a televisão brasileira usa personagens ditos com nordestinos para provocar o riso, deboche e difama os conterrâneos transparecendo e incentivado xenofobia a estes indivíduos.

Torna-se evidente, portanto, que o MJC (Ministério da Justiça e Cidadania) e o MEC (Ministério da Educação) devem combater o preconceito linguístico instalado na sociedade pelas elites. Em razão disso o MJC junto com a CONAR (Conselho Nacional de Autorregulação publicitária) deve, afim de buscar a conscientização, disseminar, nos meios de comunicação, propagandas que enalteçam as “gírias” locais e os costumes de cada região no Brasil, e processem e punam programas de TV que zombem da oralidade das regiões incitando repulsa as mesmas. Ademais, o MEC, em parceria com pedagogos, deve realizar uma reforma na grade curricular de aulas no ensino infantil, fundamental e médio. Tal reforma deverá incluir a disciplina de ética e cidadania, que ensinará valores morais essenciais, como respeito ao próximo, originando assim pessoas mais compreensivas com o diferente. Por consequência a descriminação com base ao modo de fala deixará de fazer parte do dia-a-dia das escolas e da naturalidade do cotidiano brasileiro.