Preconceito Linguístico
Enviada em 11/03/2019
De acordo com o sociólogo estruturalista Lévi-Strauss, é necessária a análise de eventos históricos e relações sociais para a compreensão da sociedade atual. Logo, analisando o processo da colonização brasileira, entende-se a grande miscigenação ocorrida, e, consequentemente, um dos problemas vigentes no Brasil contemporâneo: o preconceito linguístico, o qual afeta, por vezes implicitamente, todas as áreas de vida de grande parte dos indivíduos. A priori, convém a percepção de um etnocentrismo da língua dos mais influentes sob os povos subjulgados que perdura até os dias recorrentes. Desconsiderando-se o poliglotismo nacional, há uma imposição da norma culta da língua portuguesa, não apenas por parte da sociedade, a qual, segundo Voltaire, em seu Tratado sobre a tolerância, possui dificuldade em aceitar aquilo que é diferente, mas também, da escola, local onde deveriam ser apresentadas as alteridades sociais, mas que, estimula a supervalorização do formalismo, contribuindo, assim, para a invisibilidade e condenação de regionalismos e variantes linguísticas. Outrossim, tal cenário reflete em um segregacionismo econômico, cultural e civil. Uma vez que, conforme Karl Marx, grupos dominantes definem o padrão e escolhem aqueles que terão acesso aos meios necessários para alcançá-los, poucos têm acesso a um ensino de qualidade, permanecendo à margem da sociedade e exclusos de movimentos considerados de elite, como da literatura, com o parnasianismo, e, também, do exercício pleno de seus direitos como cidadãos, haja vista, o uso de vocábulos rebuscados e extremamente formais, tanto no movimento literário, quanto na Constituição Federal, que dificultam a compreensão em ambos os casos. Tornam-se necessários, portanto, esforços múltiplos no organismo social brasileiro para o impedimento da continuidade da apartheid social. Cabem ao âmbito midiático uma maior representatividade e a propagação de diferentes origens linguísticas e sociais em programas televisivos e cibernéticos; ao Poder Judiciário, é interessante a formulação de uma Constituição Federal em uma linguagem acessível, possibilitando o entendimento por todos os envolvidos; e ainda, com ênfase na educação, que, consoante a Nelson Mandela, é o segredo para transformar o mundo, cabe às escolas não desconsiderar a gramática, mas sim, admitir todas as variações. E, somente assim, será possível propiciar um clima de tolerância, como era querido por Voltaire, e a diminuição do preconceito linguístico no Brasil.