Preconceito Linguístico

Enviada em 23/04/2019

A língua não é algo estanque e imutável, pelo contrário, é viva, heterogênea e pertence ao povo que dela se apropria. Sob essa lógica, é possível afirmar que, no Brasil, considerando seu vasto território, existem diversas variações linguísticas que dão diversidade e riqueza ao idioma praticado no país. Contudo, nos livros didáticos utilizados nas escolas, é apresentado ao aluno apenas a gramática tradicional, dando a falsa percepção de que essa é a única forma de se comunicar corretamente. Nesse contexto, o preconceito linguístico surge na sociedade brasileira, e para combatê-lo é essencial compreender o contexto histórico e a influência da mídia no processo de reconhecimento da linguagem.       Em primeira análise, cabe pontuar que a língua é um instrumento de dominação e poder. Por exemplo, durante o processo de colonização brasileira, uma das formas de garantir a hegemonia lusitana sobre os povos indígenas e africanos era através da padronização do idioma, de tal modo, que apenas a língua portuguesa era permitida, o que culminou no extermínio de centenas de línguas e facilitou a dominação escravocrata. Desse modo, quando se privilegia uma forma de se expressar em detrimento de outra, há o favorecimento de um grupo social e, por consequência, o grupo excluído não tem a sua cultura e história reconhecidas. Logo, reconhecer as variantes linguísticas como um processo intrínseco à cultura de um povo também é uma forma de combater as desigualdades sociais.

Outro aspecto importante a ser observado, é a influência da mídia no processo de homogeneização da língua portuguesa no Brasil. Nesse sentido, é notório que grande parte dos programas televisivos são apresentados com uma linguagem padronizada, sem o uso de sotaques ou expressões regionais. Com efeito, estabeleceu-se na sociedade uma percepção equivocada de que todas as outras variantes da língua portuguesa são transgressões, e, por esse motivo, necessitam de correção. Assim, as concepções socioculturais envolvidas na formação da linguagem são desconsideradas, e, tal como afirma o escritor Carlos Bagno, ocorre a formação de estereótipos, discriminação e exclusão social, os quais caracterizam o preconceito linguístico na sociedade brasileira.

Portanto, para que a língua pertença, de fato, ao povo brasileiro, sem qualquer tipo de preconceito, medidas precisam ser adotadas. O Ministério da Educação deve promover a revisão dos livros didáticos, por meio da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), para que seja abordado o tema da variação linguística no contexto brasileiro, de tal forma, que todos alunos da educação básica se sintam representados durante o processo de aprendizagem da língua. Além disso, a mídia deve colaborar com o combate ao preconceito linguístico através da criação de programas que informem sobre a importância da variação linguística para a identidade e diversidade cultural do povo brasileiro.