Preconceito Linguístico

Enviada em 19/05/2019

Manuel bandeira, em seu poema Evocação do Recife, diz que: “ língua certa é a do povo, ao passo que nós, o que fazemos é macaquear a sintaxe lusíada”. Tal poética, contextualiza na atualidade uma forma de discriminação e segregação social no Brasil: o preconceito linguístico, pautado na inflexibilização e pureza gramatical oral e escrita. Sem dúvidas, esse problema é fruto da mentalidade preconceituosa da população e da mídia, assim como, dos modelos de ensino centrados na gramática normativa.

Primeiramente, é preciso apontar que o preconceito linguístico é histórico e persistentemente presente na sociedade. Essa realidade pode ser observada durante o surgimento do movimento literário Modernismo, onde, Graça Aranha propôs um dicionário com “brasileirismos”, enfatizando o regionalismo linguístico e cuja obra e escritor foram expugnados pela Academia Brasileira de Letras. De outro lado, a mídia alimenta o problema cada vez mais, através de notícias, comunicados e entrevistas ridicularizando os falantes regionais e aqueles que utilizam a linguagem coloquial como forma de comunicação e interação.

Outrossim, o sistema de ensino tradicionalizado em uma linguagem normativa, culta, com pouco espaço para as variações linguísticas nutrem a problemática. Isso pode ser visto em estudo realizado em São Paulo com professores do ensino fundamental e médio, revelando que 63% das aulas de língua portuguesa são voltadas para reconhecer classes gramaticais e funções da sintaxe. Ainda, consoante ao escritor Carlos Magno, existe uma trindade que gera o preconceito linguístico: o ensino tradicional, a gramática normativa e os livros didáticos compelidos de forma normativa. Dessa forma, a escola e os próprios docentes contribuem para o problema através de um sistema pautado na norma culta e sem considerar as variações linguísticas presentes em cada comunidade, região e cultura.

Logo, são necessárias ações a fim de combater esse tipo de discriminação. Cabe ao governo (municipal, estadual e federal) investir massivamente em campanhas nacionais de conscientização e de combate ao preconceito linguístico, ressaltando a importância dos falantes regionais para a língua portuguesa. Ademais, uma regulamentação governamental dos noticiários, eventos e canais com a temática discriminatória deve ser buscada e penalizada. Finalmente, compele ao Ministério da educação, junto as escolas, enfatizar na grade curricular e no material didático o estudo das variações linguísticas, como também, promover fóruns, oficinas e atividade no combate as “gramatiquices”. Talvez assim, faremos jus a frase de Carlos Magno: “a gramática não é a língua”.