Preconceito Linguístico

Enviada em 08/06/2019

Macunaíma, o herói sem caráter do escritor modernista Maria de Andrade, relata por meio das Cartas as Icamiabas a distinção entre a língua falada e escrita dos paulistas, sendo essa última considerada a mais bonita e correta pelas classes dominantes da obra. Hodiernamente, esse fenômeno de supervalorização de um tipo de expressão da língua ainda é uma triste realidade brasileira que se perpetua como preconceito linguístico, reflexo do ensino essencialmente normativo da língua portuguesa nas escolas, bem como da impunidade frequente de seus autores no país.

Nesse contexto, é indubitável que a escassez de espaços de diálogo sobre a pluralidade da língua nas escolas brasileiras esteja entre as causas dessa problemática. De acordo com Marcos Bagno, linguista brasileiro, em seu livro “Preconceito Linguístico”, o ensino puramente técnico do português contribui para supervalorização da linguagem culta e menosprezo das falas populares e regionais no país. Nesse sentido, as instituições de ensino, ao não debaterem com pais e alunos as inúmeras variações sociais e regionais da língua portuguesa, como os ditos populares e as gírias, possibilitam a manutenção da cosmovisão equivocada de superioridade da forma culta e normativa da língua na sociedade, fenômeno denunciado por Mario de Andrade em sua referida obra. Isso repercute no preconceito linguístico na internet através de vídeos e imagens vexatórias, como os “memes”, dirigidas às camadas consideradas incultas.

Outrossim, a falta de punição dos autores desses atos discriminatórios no Brasil agrava tal quadro. Segundo Aristóteles, a política deve ser usada de modo a garantir a justiça e o equilíbrio no corpo social. No entanto, observa-se que tal ideal não é devidamente praticado pelos entes legislativos e judiciários brasileiros, haja vista que não há no país leis específicas e um esforço a nível nacional para identificação e punição dos praticantes do preconceito linguístico, especialmente nas redes sociais, o que estimula a disseminação dessas agressões frente a sua impunidade.

Dessa forma, urge que o Estado brasileiro tome medidas diligentes que mitiguem o preconceito linguístico no país. Destarte, o Ministério da Educação e as Secretarias de Cultura devem incentivar o debate sobre a diversidade da língua portuguesa nas escolas para pais e alunos por meio de rodas de conversas, oficinas e gincanas culturais com representantes das regiões brasileiras e demonstração dos ditos populares a fim de aproximar os falantes do português e combater a cosmovisão errônea de superioridade da forma culta da fala na sociedade. Por fim, o Ministério da Justiça e o Congresso Nacional, mediante o debate parlamentar, devem propor leis mais rígidas que garantam a punição daqueles que praticarem esse preconceito, visando à redução de sua disseminação.