Preconceito Linguístico
Enviada em 09/06/2019
A primeira fase do modernismo pregava, entre outros conceitos, a liberdade linguística, com incorporação da linguagem coloquial. Entretanto, os poetas modernos não conseguiram desvincular o preconceito da escrita e da fala para muito seus leitores. Assim, a prevalência do preconceito linguístico é cristalizado na história do país, acarretando impactos na sociedade.
Em primeiro lugar, vale ressaltar que o preconceito linguístico não condiz com a história do idioma lusitano. Isso se deve ao fato de que o português advém do latim vulgar – modalidade popular do idioma matriz. Por isso, negar as variações linguísticas correntes é a tentativa frustrada e purista de negar o fato: a língua é viva e passível de mudança, tal qual seus falantes. Além disso, é importante lembrar que cada variante possui características individuais e isso é patrimônio cultural de determinado grupo, logo, discriminar algumas formas de realização configura etnocentrismo e falta de conhecimento da história de um país. Diante disso, ficam evidentes a inconsistência do preconceito e a necessidade de proposição de políticas públicas a fim de que se erradique essa problemática.
Somado a isso, é necessário aceitar que o prestígio de norma culta é ferramenta eficaz para a manutenção da segregação social. Nesse contexto, é correto afirmar que sujeitos com maior escolaridade e maior poder aquisitivo, por exemplo, sobressaem-se em detrimento daqueles que não tiveram as mesmas oportunidades, reforçando, assim, a lógica meritocrática. Segundo Bechara – membro emérito da Academia Brasileira de Letras – cada qual deve ser poliglota em sua própria língua, isto é, não é necessário pensar em correções ou incorreções gramaticais, mas em adequação às situações de fala. De certo, essa problemática reflete os erros das gestões públicas em relação aos temas educacionais e por isso, é imprescindível que as autoridades tomem atitudes cabíveis para estancar esse impasse.
Faz-se necessário, portanto, que o preconceito seja encarado como um ponto que requer atenção. Cabe ao MEC ações que reformulem os cursos de letras nas instituições de ensino superior no país, atuando na conscientização do corpo docente para que formem alunos que respeitem os variados registros e passem isso adiante. Ademais, a escola deve incentivar a leitura para os estudantes, para que em função disso, eles possam aprimorar o seu vocabulário de acordo com a norma padrão. Além disso, a mídia deve parar de estereotipar os personagens de acordo com a sua maneira de falar e invista em campanhas que ajudem a desconstruir o preconceito linguístico e incentivem a leitura. Só assim todos aprenderão a ser poliglotas em português.