Preconceito Linguístico

Enviada em 08/07/2019

Segundo o sociólogo Zygmunt Bauman, em sua obra “Em busca da Política”, nenhum país que esquece a arte de questionar pode esperar encontrar respostas para as adversidades que o afligem. Nessa perspectiva, tornam-se passíveis de discussão os problemas enfrentados, hoje, pela sociedade brasileira no que tange ao preconceito linguístico, a saber: a segregação social e a marginalização das variações linguísticas. É imperativo, diante desse cenário, que o Poder Público e coletividade questionem acerca do seu papel no enfrentamento deste problema social.

Convém ressaltar, a priori, que a língua é, historicamente, utilizada como instrumento de distinção social. Consoante ao linguista Marcos Bagno, o conhecimento de gramática normativa é utilizado como uma forma de distinção e de dominação pela população culta. De fato, desde que o Brasil era colônia, havia a necessidade de uma língua que fosse capaz de distinguir os índios e os escravos dos senhores de engenho. Hodiernamente, nota-se uma analogia, pois os sujeitos com maior escolaridade e maior poder aquisitivo, por exemplo, sobressaem-se em detrimento daqueles que não tiveram as mesmas oportunidades, reforçando, assim, a segregação social.

Somado a isso, vale salientar que o assédio linguístico não é condizente com a história do idioma lusitano. Isso se deve ao fato de que o português advém do latim vulgar – modalidade popular do idioma matriz. Por isso, negar as variações linguísticas correntes é a tentativa frustrada e purista de negar o fato: a língua é viva e passível de mudança, tal qual seus falantes. Além disso, é importante lembrar que cada variante possui características intrínsecas e isso é patrimônio cultural de determinado grupo, logo, discriminar algumas formas de realização configura etnocentrismo. Diante disso, ficam evidentes a inconsistência do preconceito e a necessidade de proposição de políticas públicas a fim de que se erradique essa problemática.

Destarte, é mister combater o preconceito linguístico no Brasil. Para tanto, cabe ao Ministério da Educação ações que reformulem os cursos de letras nas instituições de ensino superior no país, atuando na conscientização dos corpos docente e discente para que não falem sobre o assunto apenas, mas o destrinchem a fim de formar alunos que respeitem os variados registros. Ainda ao mesmo órgão em conjunto com a mídia cabe a descentralização da variante metropolitana em horário nobre ou em situações importantes e de repercussão nacional, como por exemplo os telejornais, contemplando a diversidade, para que a maioria dos brasileiros seja representada. Espera-se com isso valorizar todas as variantes da língua portuguesa e minimizar o uso dela como prestígio social.