Preconceito Linguístico
Enviada em 27/07/2019
Em um vídeo gravado para o Youtube, o humorista Whindersson Nunes fala de situações constrangedoras que passou somente por ser nordestino: seu sotaque virava motivo de piada e era chamado de engraçado. Lamentavelmente, essa situação ocorre diariamente com pessoas que tem marcas linguísticas diferentes das dos grupos dominantes, isto é, nota-se que há um forte preconceito linguístico. Dessa forma, é inegável que essa intolerância deve ser veemente combatida, tanto por ser degradante socialmente como por ir de encontro à formação histórica das sociedades.
Em relação ao primeiro viés, cabe destacar que a estigmatização da “forma ideal” de fala é parte da discriminação. Para elucidar essa ideia, é válido remeter ao que diz o sociólogo Erving Goffman em seu livro “Estigma”. Segundo o pensador, a estigmatização ocorre quando há uma quebra do pensamento ideal. Ou seja, formas de expressão que se diferenciem de um grupo são tratadas como inferiores, e por isso são excluídas e menosprezadas. Infelizmente, é possível fazer uma triste ligação entre o pensamento do autor com a realidade, como foi o caso do médico que publicou, em suas redes sociais, uma postagem inferiorizando um paciente que não conseguiu dizer os termos técnicos para procedimentos médicos corretamente. Logo, é revoltante que essa realidade seja assistida com leniência, porquanto, legitima um ato atroz e antiético.
Consoante o segundo ponto, é importante ressaltar que a variedade linguística é indicadora de um processo de formação história envolvendo vários povos e não deve ser reprimida. Para compreender esse aspecto, pode-se pontuar o que diz o historiador Marc Bloch: a história é um esforço para melhor conhecer uma coisa em movimento. Contudo, é desanimador notar que essa perspectiva foi substituída por uma tendência que visa padronizar as formas de expressão, o caso que ganhou uma maior repercussão foi a contratação de fonoaudiólogos por uma emissora de televisão para que seus atores e apresentadores pudessem falar sem sotaque e marcas regionais. Portanto, a negação das variadas formas de expressão linguística corrobora uma esquecimento das raízes históricas das nações.
Em suma, é urgente pensar em uma forma de enfrentar a problemática. Para isso, a mídia - por ter grande influência na dinâmica social - deve trazer o assunto do preconceito linguístico à tona com mais regularidade, para ao menos incitar uma reflexão por parte dos telespectadores. Isso pode ser feito por meio tanto das formas tradicionais de comunicação: jornais, revistas e novelas, como dos novos veículos de expressão: sites, blogs e anúncios em redes sociais. Isso sendo feito, consequentemente, com a finalidade de romper com a ideia que sustenta uma forma julgada como “ideal” de se falar e que restringe as manifestações culturais.