Preconceito Linguístico
Enviada em 13/08/2019
O sociólogo Gilberto Freyre afirmou, em sua obra “Casa-Grande e Senzala”, que a pluralidade de dialetos existentes no Brasil forma a identidade do país. Destarte, todos devem ser respeitados, todavia, o preconceito linguístico é nocivamente comum na realidade brasileira. Sob esta ótica, é fundamental analisar como a escola e as amarras históricas causam o problema e como liquidá-lo.
Inicialmente, é fato que a escola é a principal responsável pela intolerância linguística. Isso ocorre porque, desde os anos iniciais, as crianças são apresentadas a norma culta, estigmatizada de forma “correta” da língua, enquanto que apenas no ensino médio, as variâncias linguísticas são trabalhadas. Analogamente, compreende-se que os “pequenos cidadãos”, de acordo com John Locke, são como “folhas de papel em branco”, que a partir dos ensinamentos adquiridos ao longo da formação educacional, ou seja, os “rabiscos”, vão sendo moldados. Lamentavelmente, a escola exerce um papel negativo de conduta, visto que produz sujeitos extremamente ignorantes e preconceituosos, que não cultuam a diversidade “verde e amarela, tal como defendeu Freyre.
Outrossim, vale frisar que a herança história é outro grave fator que impulsiona a problemática. Durante o período pombalino, o Conde Marquês de Pombal determinou que o português seria a língua oficial da colônia. Logo, a sociedade, que tende a incorporar estruturas sociais de sua época, conforme defendeu o sociólogo Pierre Bourdieu, naturalizou e passou a reproduzir esse ordenamento ao longo das gerações. Nesse sentido, percebe-se, que embora a língua portuguesa tenha se “abrasileirado” ao decorrer do tempo, o preceito bourdieniano ainda persiste. Prova disso é o caso do médico paulista que criticou, em suas redes sociais, seu paciente por falar “peleumonia” em vez de pneumonia.
Infere-se, portanto, a necessidade de se solucionar o preconceito linguístico. Diante dessa afronta, a fim de acabar com a visão etnocentrista encontrada no âmbito escolar, é primordial que o Ministério da Educação altere a grade curricular para que os professores passem a trabalhar, desde o ensino fundamental, as questões relacionadas com a valorização e o respeito acerca das variantes da língua, por meio de uma reforma educacional direcionado para as disciplinas de linguagens. Ademais, cabe ao Estado, aliado à mídia, criar uma série chamada de “As Falas do Brasil”, mediante capitais financeiros cedidos pela União, que debata o preconceito linguístico no que tange às formas da fala, com o fito desestruturar esse empecilho nacional. Só assim, os dialetos poderão ser valorizados e a tese de Gilberto será, finalmente, validada.