Preconceito Linguístico

Enviada em 29/08/2019

O cantor e compositor nordestino Luiz Gonzaga traz em diversas letras de suas canções, dentre elas “Asa Branca” - um de seus maiores sucessos - palavras próprias do dialeto do sertão nordestino do Brasil. Nesse contexto, essa variante linguística, assim como tantas que compõem a plural cultura brasileira, comumente é depreciada e caricaturada em consequência do preconceito enraizado na sociedade. Diante disso, é fundamental analisar o atual panorama para desconstruir essa realidade.

É importante considerar, antes de tudo, as raízes históricas por trás da problemática. Nesse sentido, no processo de colonização do Brasil no século XVI, os portugueses subjugaram a cultura dos nativos, impondo a esses sua religião, costume e, dentre outras coisas, sua língua em detrimento dos dialetos indígenas. Acerca desse cenário, em consonância com o linguista Marcos Bagno, a língua ainda hoje é usada como instrumento de coerção social, e isso é potencializado nas escolas, na medida em que é falho, e muitas vezes inexistente, o ensino voltado para o entendimento da diversidade linguística e paro o seu respeito. Tal realidade intensifica a segregação social e alerta para a necessidade de reformulação na educação.

Outrossim, é válido ressaltar a mídia como veículo propagador desse tipo de discriminação. Em vista disso, é comum programas televisivos formularem seus personagens de forma caricata com base no seu modo de falar. Exemplo disso foi, nos anos 2000, a criação do personagem “Nerso da Capitinga”, do programa “Zorra Total”, que aludia a um homem do ambiente rural, e sua fala, baseada em variantes linguísticas, era motivo de escárnio. Desse modo, há uma densa corroboração midiática na construção de esteriótipos regionais e no desrespeito ao multiculturalismo, naturalizando o preconceito como forma de entretenimento.

Concernente ao problema, urge, portanto, sólida participação do Ministério da Educação, em estudo com a comunidade escolar, na implementação de um ensino - desde a educação básica - que trabalhe a formação cultural brasileira, por meio da capacitação de professores dentro das universidades, e com com a implementação de palestras, debates e saraus literários com enfoque no Movimento Modernista brasileiro - que buscava valorizar a linguagem coloquial como parte de nossa identidade e expressividade - , visando formar cidadãos conhecedores, e valorizadores de suas heranças. Ademais, a mídia deve abraçar a causa promovendo ficções engajadas que desconstruam personagem caricatos que reforçam estigmas linguísticos, no intuito de enaltecer a importância das particularidades regionais na construção do “ethos” brasileiro, e assim, mitigar esse descalabro social. Desse modo, essas ações contribuirão para que os ideais do Modernismo não se restrinjam somente à literatura.