Preconceito Linguístico

Enviada em 08/09/2019

Durante a chegada dos portugueses ao Brasil, propagou-se o ideal de superioridade europeia em relação à sociedade indígena, principalmente associado à linguagem desses grupos, vista como desordenada. Não obstante, no presente, é inegável a importância da diversidade linguística na consolidação da identidade brasileira, entretanto, o preconceito vocabular ainda é um processo de cobrança na sociedade, o que se deve a fatores como a hierarquização linguística e inflexibilidade educacional.

É importante considerar, de início, a influência da imposição de uma linguagem normativa como campo fértil desse cenário. Nesse sentido, de acordo com o sociólogo Pierre Bourdieu, o indivíduo incorpora, naturaliza e reproduz modelos preconizados em sua realidade. Partindo desse aspecto, o tecido social, frequentemente alicerçado em preconceitos e segregação a falares regionais e etários particulares, decorrentes de conceitos midiáticos e padronizantes, acaba por influenciar uma cosmovisão social de prestígio a padrões linguísticos distantes da realidade brasileira. Tal panorama contraria os princípios originários da língua, que se constitui em um instrumento de comunicação social maleável em consonância com a necessidade comunicativa de diferentes culturas.

Outrossim, é factível que a inflexibilidade das instituições escolares é igualmente fator dos obstáculos desse contexto. A esse respeito, quando o educador Paulo Freire afirma a escola como oportunidade de reversão de uma lógica opressora vivida por inúmeros seguimentos da sociedade, ratifica a importância da variabilidade lexical ser contemplada no ensino. Porém, na contramão desse pensamento, os parâmetros curriculares das escolas brasileiras negligenciam constantemente a abordagem de variantes lexicais, como a indígena, ainda as transmitindo a títulos de curiosidade. Com efeito, percebe-se que a falta de resiliência de uma educação inviabiliza uma compreensão dialógica em consonância com o respeito à exuberância linguística brasileira.

É imperioso, portanto, mecanismos energéticos no embate dessa problemática. Dessa maneira, cabe ao Ministério da Educação a efetivação de um ambiente escolar em consonância com o reconhecimento da multiplicidade linguística no Brasil. Isso pode ser estabelecido por meio de novos parâmetros escolares com materiais que abordem as diferentes variedades da língua, como a contemplação de autores literários regionalistas, a fim de diminuir duvidas sobre o assunto e extinguir pré-julgamentos. Com efeito, poder-se-á formar cidadão mais preparados para transcender preconceitos atrelados aos diferentes falares no Brasil e concretizar um realidade destoante aos ideários que remetem a passados colonialistas.