Preconceito Linguístico
Enviada em 04/09/2019
‘‘Lá no meu sertão pros caboclo lê / Têm que aprender um outro ABC / O jota é ji, o éle é lê / O ésse é si, mas o érre / Tem nome de rê. ’’ O trecho da música de Luiz Gonzaga aborda a notável diversidade da Língua Portuguesa. Nesse contexto, embora seja altamente plural, o Brasil caminha na contramão do reconhecimento das suas diferenças, em face de lacunas nos âmbitos educacional e midiático, os quais fomentam o preconceito linguístico. Assim, faz-se necessário desconstruir esses obstáculos, a fim de valorizar, de fato, a pluralidade nacional na atualidade.
Em primeiro lugar, esse cenário recai sobre o caráter pedagógico. O Filósofo Paulo Freire salienta a importância de as escolas se atentarem para as transformações sociais, ao ressaltar a necessidade dos espaços educativos não se diferenciarem enquanto lugar diverso da sociedade. Entretanto, conforme dados do artigo ‘‘O Tamanho da Língua’’, da Folha de São Paulo, a maior parte da discriminação advém dos educadores, uma vez que há a defesa de uma prática tradicional e normativa, em detrimento de outras vias vocabulares. Consequentemente, os indivíduos se tornam críticos em relação à maneira de falar do próximo, como o ocorrido em São Paulo, quando o médico Guilherme Capel debochou de paciente na internet, por ele ter falado ‘‘peleumonia’’.
É fundamental mencionar, ainda, a influência da mídia nesse panorama. Isso porque a criação de personagens caricaturados corrobora com a propagação dessa condição. Nesse sentido, os programas de humor como o Zorra Total, por exemplo, tendem a ridicularizar determinadas maneiras de falar, ao relacioná-las à baixa escolaridade ou à situação social na qual a pessoa se encontra. Consequentemente, tal fato, camuflado nos bordões televisivos, passa a ser reproduzido pelos telespectadores. Diante disso, o preconceito linguístico é inserido na sociedade de forma subentendida, fator que favorece a exclusão de grupos sociais.
Infere-se, portanto, que não reconhecer as diversidades fomenta a propagação do preconceito linguístico. Logo, para mitigar essa visão, é imprescindível que o Ministério da Educação promova campanhas educacionais, ao sinalizar na grade curricular a importância da pluralidade nacional, com o intuito de estimular o corpo docente a conhecer culturas e tradições diferentes. Além disso, os meios de comunicação devem suprimir a criação de esteriótipos, através da desmistificação dos argumentos que visam menosprezar a heterogeneidade da língua, tralhando o multiculturalismo em seus conteúdos. É importante, ainda, que desrespeitar o outro pela forma de falar se torne crime, com o propósito de responsabilizar quem o pratica. Afinal, como assegurou o autor André Dias, ’’ A diversidade cultural é um herança preciosa’’ ,e cabe ao imaginário coletivo proteger esse patrimônio.