Preconceito Linguístico
Enviada em 12/09/2019
Certa noite, a agulha, cansada de ser menosprezada perante a linha discute sua relevância com a linha. Esta, por acreditar que nada era mais importante que manter unidos os retalhos, mantinha o seu ar arrogante; aquela, por sua vez, tentava justificar o seu mérito ao abrir caminhos pelo dito tecido. É assim que Machado de Assis, em “Um Apólogo”, apresenta dois tipos caricaturais no qual um é vangloriado e o outro renegado. O conflito entre a língua culta e a popular é o mesmo da linha e da agulha: as variantes populares são negligenciadas ainda que imprescindíveis no âmbito social. Diante disso, é essencial analisar como a herança histórico-cultural e a inação governamental influenciam o óbice em questão.
É relevante enfatizar, a princípio, que o preconceito linguístico deriva, primordialmente, do legado histórico brasileiro. Isso decorre de um estereótipo advindo do século XVIII, quando, à época, aqueles que possuíam diferentes sotaques e maneirismos linguísticos eram vistos, na perspectiva Centro-Sulista, como inferiores e, portanto, incapazes. Assim, amparado pela “Teoria do Habitus”, do sociólogo Pierre Bourdieu, esse comportamento foi naturalizado, incorporado e, hoje, reproduzido diariamente. Evidencia-se isso, por exemplo, nos constantes desentendimentos entre sulistas e nordestinos, em que aqueles do Sul mantém - igualmente à linha no conto machadiano - seu ar arrogante, inferiorizando aqueles do Nordeste.
Somado-se a isso, o Estado, pouco se preocupa em garantir, na prática, aquilo que é assegurado na Constituição de 1988: a garantia da liberdade de expressão. Isso acontece porque, segundo Nick Couldry, na obra “Por que a Voz importa?”, as minorias sociais - como os nordestinos, por exemplo - não possuem poder político e econômico no alto escalão estatal. Por conseguinte, sem direito de representar seus anseios, aqueles que utilizam da variante popular são deixados à margem da sociedade por aqueles que pensam que a língua, como no século XVIII, seja um instrumento de superioridade.
Infere-se, portanto, que as variantes mais populares são renegadas perante as mais cultas. Em razão disso, o governo Federal, na figura do Ministério da Educação, deve criar uma nova disciplina de nome “Ética na fala”, por meio do consenso e debate de professores da área de Letras, que vise desconstruir o preconceito enraizado durante a formação cultural brasileira, a fim de garantir o direito à fala, uma vez que ela é essencial em uma sociedade democrática. Assim, opondo-se ao ocorrido no conto de Machado, todas as formas de expressão da língua serão preservadas.