Preconceito Linguístico

Enviada em 15/09/2019

Durante o Parnasianismo, Olavo Bilac já exaltava a língua como a “última flor do lácio”, em uma clara alusão à cultura Greco-Romana. De fato, a língua, ao longo da formação de um povo, configura como um instrumento de comunicação e interação entre os indivíduos. Não obstante, é evidente que, muitas vezes, a mesma atua de maneira negativa, como principal fator de exclusão entre falantes. No brasil, a prevalência de uma determinada corrente e detrimento de outra é uma realidade cristalizada na história do país, acarretando impactos socioculturais que devem ser combatidos.

A princípio, vale destacar que, embora a língua portuguesa seja falada no brasil, a mesma é viva e passível de mudanças, sejam elas regionais, etárias ou sociais, tal qual seus falantes. Desse modo, é incoerente existir preconceito linguístico em uma nação cuja colonização foi híbrida, ou seja, houve mistura de culturas durante a colonização. Além disso, cada variante possui características intrínsecas ao patrimônio de cada grupo, o que desmistifica, desse modo, a falsa noção de idioma unitário. De modo que marginalizar determinadas correntes configura não só etnocentrismo e falta de conhecimento histórico.

Ademais, é notório que o prestígio advindo de uma variante padrão constitui como principal fator de assédio linguístico. Segundo Evanildo Bechara, membro emérito da Academia Brasileira de Letras, cada indivíduo deve ser poliglota em seu próprio idioma, isto é, adequar seu diálogo a cada situação. Não obstante, é fato que a rigidez educacional ao abordar tão somente a gramática normativa, impede não só a possibilidade de transitar em diversos meios sociais, mas ainda incita julgamentos depreciativos a diversas variantes linguísticas. Cabe ressaltar, também, como a mídia favorece a estereotipação de determinadas representações. Nas novelas e filmes são colocados personagens para provocar risos dos espectadores através do seu sotaque como, por exemplo, os nordestinos e com isso esse personagem passa a ser objeto de ridicularização e exclusão.

Considerando-se os aspectos mencionados, é mister que o Ministério de Educação reformule o currículo do curso de letras das instituições de ensino do país, para que insira, desde cedo, por meio de matérias didáticos, visitas a espaços culturais e exibições cinematográficos, uma abordagem dos variados registros utilizados e conscientize o corpo discente e docente para que formem cidadãos que respeitem as diferenças. Ainda ao mesmo órgão, em conjunto com a mídia, cabe a descentralização da variante metropolitana em horário nobre ou situações de repercussão nacional, com em telejornais e novelas, contemplando a diversidade para que todos sejam representados. Só assim, todos poderão ser poliglotas em português.