Preconceito Linguístico

Enviada em 28/09/2019

No filme “My Fair Lady”, Henry Higgins, um esnobe estudioso de fonética, considera a fala como um modo de identificação das origens das pessoas, criticando as formas que julga como degenerações do idioma legítimo. Ao longo da trama, ele é desafiado a transformar uma humilde florista, Eliza Dolittle, em uma dama ao ensiná-la a falar o inglês autêntico. Analogamente, a obra representa uma realidade do Brasil hodierno: a discriminação das variantes linguísticas tidas como informais, sendo isso uma consequência do estabelecimento de uma normativa padrão que atua como instrumento de segregação social dentro de um país marcado pelo seu multiculturalismo.

Primordialmente, convém investigar as raízes deste comportamento hostil, visto que ele tem como efeito a marginalização dos falantes do linguajar popular. Dessa forma, o fato deste dialeto só ter adentrado o mundo artístico durante a Semana de Arte Moderna, que ocorreu em 1922, é uma das causas dele não receber sua devida visibilidade e reconhecimento. Isso resulta na desinformação de uma parcela da população, a qual, assim como na alegoria da caverna de Platão, é prisioneira dos costumes e preconceitos que adquiriu em sua base educacional, tendo uma visão limitada e incompleta acerca deste aspecto cultural.

Outrossim, o desprezo de diversas variações do português pode ser visto como um certo paradoxo, uma vez que o país se originou a partir da miscigenação de várias etnias, sendo inevitável encontrar certas formas de regionalização na fala. Consoante a isso, é relevante mencionar que, de acordo com o filósofo Heráclito, o movimento e a transformação são a essência de todas as coisas do universo. Nessa perspectiva, esse pensamento se manifesta na linguagem, a qual se encontra em constantes renovações ao redor do território nacional, sendo inadequado estabelecer uma dessas flexões como a normativa padrão.

Em virtude do que foi mencionado, evidencia-se que quadro atual carece de intervenção. Sendo assim, para que as próximas gerações não estejam acorrentadas pela ideia errônea de existir uma flexão linguística superior as outras, cabe ao Ministério da Educação (MEC), por meio da incorporação da pluralidade da língua portuguesa no currículo escolar básico, desconstruir essa visão intolerante e libertar os indivíduos das amarras da ignorância. Somente assim será possível superar a problemática retratada no filme “My Fair Lady”, em que aqueles que não falavam a suposta língua inglesa culta eram marginalizados na sociedade.