Preconceito Linguístico

Enviada em 11/10/2019

A formação cultural do Brasil retoma sua própria constituição enquanto nação e a miscigenação – resultado da mistura das etnias que desembarcavam no Novo Mundo – foi um processo relevante durante a história brasileira. Evidentemente, a língua portuguesa também sofreu alterações à medida dessa mistura, devido às influências de usos e costumes de cada região e seus traços culturais característicos. Nesse sentido, o preconceito linguístico surgiu como uma reação negativa às particularidades da língua, da qual se destaca a tentativa homogeneizá-la.

Em primeira análise, vale ressaltar que a variação linguística se refere à forma de expressão usada no dia-a-dia pelos grupos sociais em seu meio de convívio. Sendo assim, a internet é um bom exemplo de meio em que surge um novo falar, representado pelas gírias e expressões que enfatizam a identidade linguística de determinados grupos. Analogamente, Guimarães Rosa marcou a literatura brasileira ao valorizar em suas obras os regionalismos da língua e suas peculiaridades, também inovando o falar através de seus neologismos, a arte de criar palavras. Neste aspecto, depreende-se que o idioma é uma característica cultural que busca representar uma visão de mundo de cada comunidade, devendo, enfim, transmitir uma mensagem, tal qual ocorre nas icônicas obras do autor mineiro ou nos meios digitais.

Todavia, como toda particularidade, essa também sofre com a imposição de padrões que buscam suprimi-la. O estudo da palavra pelo seu registro formal exemplifica sua invenção de classe, conforme uma pequena parcela da população possuía domínio da norma culta, quadro esse que se perpetua aos dias atuais. Ademais, cabe destacar que a língua está em constante mudança, como verifica-se na substituição de “vossa mercê” pelo “você” ao longo das décadas. Por conseguinte, seu estudo pela escrita dificulta o entendimento dessas mudanças decorridas com o passar do tempo, uma vez que elas ocorrem naturalmente nos meios sociais. Destarte, o preconceito linguístico não reconhece as readaptações que a língua viva vem a sofrer no decorrer do seu uso.

Diante disso, assim como pontua o autor Ariano Suassuna: “Eu não troco meu ‘oxente’ por ‘ok’”, urgem medidas que busquem valorizar as características de cada dialeto. Portanto, cabe ao Ministério da Cultura incentivar as artes de expressão da cultura popular, como o teatro de rua ou a música por exemplo, mediante a destinação de verbas que custeiem programas sociais voltados para o estudo e a difusão da língua para todos os meios. Espera-se, com isso, que a população tenha acesso ao conhecimento que o leve a valorizar a língua em todas as suas formas. Assim sendo, a formação cultural a língua brasileira será valorizada, assim como colocado pelo poeta Suassuana.