Preconceito Linguístico

Enviada em 29/10/2019

Em “A Hora da Estrela”, obra da escritora brasileira Clarice Lispector, a personagem Macabéa é uma mulher nordestina que, como muitos outros, migrou para o sudeste em busca de melhores condições de vida. Contudo, a personagem enfrenta um problema: o preconceito linguístico, que a afeta até mesmo em seu trabalho. Analogamente à ficção, no Brasil, um país munido de uma diversidade sociocultural sem igual, o preconceito contra as variedades linguísticas, que fogem do que é considerado “correto” pela maioria, é um grave problema que traz consequências negativas para as vítimas em diversas esferas.

A princípio, é importante ressaltar que a pluralidade da língua portuguesa existente no Brasil é um patrimônio imaterial de muitíssima importância. Tal diversidade foi retratada em diversas obras regionalistas escritas, principalmente, durante as escolas Romântica e Moderna da literatura. Desse modo, é inegável que essas variações foram de grande relevância para a construção da identidade nacional. Todavia, no país tupiniquim hodierno, as nuances da língua são frequentemente retratadas na mídia de forma caricata, sendo frequente suas aparições em novelas e propagandas sendo ditas por personagens inferiorizados e mostrados de forma pejorativa.

Consequentemente, cria-se uma cultura de preconceito com tudo aquilo que foge da chamada norma culta ou padrão da língua portuguesa, que é o conjunto de regras gramaticais da língua, contudo, que não precisam ser seguidas na informalidade da comunicação oral, por exemplo. Entretanto, a própria escola, com colegas e professores, e o ambiente de trabalho, como no caso de Macabéa, causam constrangimentos ao individuo cuja linguagem varia do “padrão”, seja no vocabulário, com o uso de expressões regionais, ou na morfologia, com o uso de palavras incorretas de acordo com a norma culta. Por conseguinte, isso faz com que o trabalhador, ou aluno, sinta-se humilhado e desmotivado, gerando, na maioria das vezes, quedas em seu rendimento.

Portanto, para mitigar as mazelas causadas pelo preconceito linguístico e, consequentemente, tornar o Brasil mais plural e empático, é necessário que algumas medidas sejam tomadas. Cabe aos veículos de mídia, como a televisão e as plataformas de streaming, retratarem em seus programas a variação linguística de forma natural, de modo a enaltecê-lá e não criticá-la, por meio da inclusão de personagens não caricatos fazendo a utilização dessa pluralidade. Ademais, o Ministério da Cidadania deve realizar campanhas em pró do fim do preconceito linguístico, por meio de informativos, sobre a importância sociocultural da diversidade da língua portuguesa, veiculados por mídias de fácil acesso como o rádio e a televisão, para assim, conscientizar o maior número de pessoas possível.