Preconceito Linguístico
Enviada em 29/10/2019
“Havia uma pedra no meio do caminho”. O verso do poeta Carlos Drummond de Andrade trata-se de uma metáfora para os desafios e pode exemplificar o preconceito linguístico como um entrave ao desenvolvimento social. Destarte, é imprescindível que sejam discutidos os efeitos da problemática na contemporaneidade e que haja compreensão do processo de variação da língua em diversos grupos sociais.
Diante desse cenário, é válido ressaltar que consoante Émile Durkheim, o preconceito constitui um patologia social -fato que prejudica o desenvolvimento coeso da sociedade-. Nesse contexto, a discriminação linguística deve ser combatida, uma vez que representa um obstáculo à coesão do corpo social, e agrava a situação de segregação de certos grupos étnicos e econômicos. Dessa forma, o domínio da norma culta exerce influência direta na posição socioeconômica do indivíduo, fato que dificulta a ascensão social de pessoas com menor grau de instrução.
Outrossim, é imperativo pontuar que de acordo com Heráclito, “‘Nada é constante, salvo a mudança”", desse modo, a língua está em processo de modificação constante. Prova disso é a variação da linguagem utilizada por autores em suas obras, como pode ser observado no poema Ismália, do período simbolista, no qual são utilizados termos rebuscados, pertinentes à norma culta, em contraste com o livro os Sertões, de Euclides da Cunha, em que são utilizadas palavras do cotidiano nordestino, não pertencentes à língua padrão. Assim, é indispensável que haja adequação da linguagem à situação, pois a utilização de variações regionais não desqualifica o uso do idioma.
Torna-se evidente, portanto, que o preconceito linguístico é nocivo à sociedade, devendo ser mitigado. Para tanto, o Ministério da Educação, por intermédio de projetos educacionais no ensino fundamental e básico, com professores capacitados em língua portuguesa, estimule a utilização de variantes linguísticas entre os alunos, e favoreça a flexibilização do uso da norma padrão, de modo que diferentes formas de falar sejam compreendidas como expressão válida do idioma, a fim de reduzir os casos de discriminação linguística. Ademais, o poder público, deve, por meio de campanhas publicitárias, desconstruir a idealização do uso exclusivo da norma culta, com o objetivo de possibilitar a ascensão social de indivíduos com menor grau de instrução. Concretizadas essas medidas, o preconceito linguístico não será uma pedra no meio do caminho.