Preconceito Linguístico
Enviada em 31/10/2019
Em seu poema intitulado como “pronominais”, Oswald de Andrade, importante nome do Modernismo, expõe a diversidade do uso da língua nos diferentes modos de expressar uma mesma ideia, sem, necessariamente, classificá-las como certa ou errada. No entanto, no contexto hodierno, essa dicotomia não é reconhecida pela população culta, sendo, portanto, instrumento de perpetuação do preconceito linguístico. Nesse aspecto, depreende-se que a “superioridade” erudita e metodologia de ensino nas escolas funcionam como propulsores para tal problemática.
Em primeiro lugar, evidencia-se que o preconceito linguístico pode ser proveniente da segregação social, e funciona como meio de demonstração de poder e controle pela população mais escolarizada. De forma análoga ao filósofo Karl Marx, os grupos dominantes definem os padrões a serem seguidos, bem como aqueles que terão acesso aos meios necessários para alcançá-los. Dessa maneira, a população erudita ao definir critérios acerca do que é certo e errado gramaticalmente, contribui para a ocorrência do preconceito linguístico, uma vez que as camadas menos favorecidas não conhecem ou não utilizam a língua normativa no exercício do diálogo. Logo, denota-se que o controle social impõe-se no momento em que a minoria fica à margem dos instrumentos vitais para a mudança dessa realidade, vide o acesso à educação.
Não obstante, destaca-se o sucateamento do material escolar no tocante ao ensino da Língua Portuguesa no Brasil. Nessa ótica, segundo notícia do G1, o material didático utilizado na escola tem metodologia atrasada em 30 anos. Mediante esse cenário, o ensino pedagógico prioriza o ensino da gramática normativa e negligencia a aplicação da oralidade como ferramenta de contato com os dialetos e variações da linguagem, já que configura-se como particularidade das diversas regiões do país. Diante desse fato, o aluno, por ter contato apenas com a norma culta, é condicionado a aceitar apenas uma forma de exercício da língua, desprezando qualquer outra manifestação da linguagem, gerando, por consequência, o preconceito com quem não domina a gramática regular.
Diante dos dados supracitados, faz-se mister medidas para mitigar esse imbróglio. Portanto, as escolas públicas e particulares devem, em ação conjunta, realizar debates e discussões nas praças públicas das cidades com a participação de pedagogos, professores, pais, alunos e demais pessoas, a fim de expor todas as variantes linguísticas a partir da litura e análise de textos, contos e poemas, como o de Oswald de Andrade, com o fito de demonstrar os dinamismos e as peculiaridades da língua portuguesa. Desse modo, a sociedade despertará para a importância da leitura e, por conseguinte, livrar-se-á das mazelas do preconceito linguístico.