Preconceito Linguístico
Enviada em 29/03/2020
Aristóteles, importante pensador da Antiguidade, conferia à educação caráter ímpar para separar os humanos dos demais animais, preconizando que, sem ela, o indivíduo carregaria antolhos frente à sabedoria, à “essência do ser” e, sobretudo, à cultura. No entanto, a atual aplicação dessa, no Brasil, desfaz-se das peculiaridades regionais, e, seja pela ineficiente Base Comum Curricular, BNCC, seja pelas proporções continentais, esse cenário centralizador ratifica o preconceito linguístico no país, o que, como visto, tem raízes na esfera educacional e culmina na segregação cultural dos brasileiros, afetando a “essência” aristotélica.
Cabe ressaltar, em primeiro plano, que a escola é a instituição fundamental na construção de uma massa social, todavia, o presente panorama exalta uma porção cultural, dos grandes centros urbanos, em detrimento das idiossincrasias regionais. Nesse viés, assim como teorizado pelo sociólogo Wolf Lapenies, essa educação nefasta corrobora a teoria da “Avareza Cognitiva”: os indivíduos, sem raciocínio crítico acerca de seus próprios pensamentos, devido à solidificação dos preceitos a eles impostos, adentram uma “bolha” social e ora se afastam, ora reprimem o que diverge de suas concepções. Assim, a manifestação do preconceito linguístico no país tem um arcabouço educacional evidente, e a dissolução desse urge mecanismos governamentais atrelados à reformulação da BNCC.
Por conseguinte, enquanto esse quadro permanecer inalterado, a ineficácia educacional em abranger a diversidade dos brasileiros incita uma forte segregação cultural. Marcos Bagno, importante escritor no que concerne à problemática, defende o mesmo em seu livro “Preconceito Linguístico - o que é, como se faz”. De acordo com ele, na “alegoria do iceberg”, a língua é ofuscada, nos dias de hoje, pela ponta do iceberg - que a escola ensina -, e a perpetuação disso divide as culturas do país, infelizmente, mediante um escalonamento cultural. Em suma, as proporções continentais do Brasil são, controversamente, resumidas a uma cultura hegemônica, materializada no modo de falar, enquanto descarta-se, segrega-se, as demais.
Infere-se, portanto, visto a tempestividade da problemática, que é necessário eliminar esse traço tortuoso da hodierna sociedade brasileira. Para isso, compete ao Ministério da Educação, por meio de alterações diretas na BNCC, introduzir a cultura difusa do país na educação precoce dos indivíduos, apelando constantemente a um tratamento igualitário perante qualquer expressão dessa. Além disso, a sociedade pode, por intermédio das redes sociais, divulgar campanhas que enalteçam as particularidades de cada região, objetivando, também, atenuar o preconceito linguístico no Brasil e exaltar a “essência do ser” aristotélica, ao estourar a bolha social e quebrar os antolhos culturais.