Preconceito Linguístico

Enviada em 07/04/2020

Dicionários suprimidos

“Dê-me um cigarro” diz a gramática do professor e do aluno e do mulato sabido; mas o bom negro e bom branco da nação brasileira dizem “deixa disso, camarada, me dá um cigarro”. Eis o poema moderno de Oswald de Andrade que bem ilustra o coloquialismo presente na língua portuguesa falada no Brasil. No entanto, é sabido que em nossa sociedade o preconceito linguístico compõe o cotidiano dos cidadãos, marginalizando aqueles que possuem baixa escolaridade e excluindo, assim, o modo de fala diferente do considerado correto. Diante de tais perspectivas, é imperioso que se analise fatores históricos e sociais para a melhor compreensão acerca desse tema.

Sabe-se que o Brasil descende de uma nação escravocrata que via o branco como superior e colocava à margem da sociedade o negro escravo. Desse modo, desde suas origens o português brasileiro foi muito diverso em sua composição; porém, as variantes africanas, indígenas ou de gênese modesta eram suprimidas e consideradas inferiores pelos indivíduos letrados. Sob esse prisma, o conto “Famigerado” de Guimarães Rosa aborda a temática da língua ao relatar o desconhecimento da palavra “famigerado” pelo sertanejo e o domínio da gramática pelo médico abastado, reforçando o contraste de classes atrelado ao conhecimento linguístico. Assim, tem-se a exclusão social dos indivíduos que não se adequam ao português tido como correto, negando empregos de melhor remuneração a esses, por exemplo, o que corrobora as desigualdades sociais.

Ademais, é evidente que o ensino de qualidade não está disponível a todos. Nesse sentido, paradoxalmente é exigido aos falantes do português um conhecimento não disponibilizado com excelência pelos governantes. Além disso, as escolas também propagam o preconceito linguístico ao não debaterem as inúmeras variantes da língua na sala de aula e perpetuar o discurso de que a norma culta é superior às demais variações. Diante disso, a “violência simbólica” do filósofo Pierre Bourdieu se encaixa na temática da discriminação linguística, uma vez que ainda que não haja embate físico, há danos morais e psicológicos à vítima quando inferiorizada pelo seu modo de falar.

Pode-se perceber, portanto, que o preconceito linguístico é um veículo de exclusão social presente na sociedade. Assim, é imprescindível que o Ministério da Cultura incentive a disseminação de livros que abordam as variações da língua portuguesa, com a organização de feiras literárias disponíveis a todos os cidadãos, a fim de discutir a questão da intolerância linguística. Não obstante, as escolas devem desde o ensino primário lecionar a norma culta tecendo críticas a esse tipo de preconceito para conscientizar a futura geração a respeito da riqueza cultural presente no português brasileiro.

lecionar a norma culta tecendo críticas a esse tipo de preconceito para conscientizar a futura geração a respeito da riqueza cultural presente no português brasileiro.