Preconceito Linguístico

Enviada em 19/05/2020

O período colonial brasileiro foi marcado pela repressão dos portugueses sobre os falares indígenas e africanos, os lusitanos aceitavam somente a forma padrão portuguesa como língua dominante. De modo análogo, hodiernamente, é notório perceber o quanto o preconceito linguístico é uma constante na sociedade. Nesse contexto, há fatores que não podem ser negligenciados, como a supervalorização da norma padrão e o enraizado preconceito social. Porém, decerto, é imprescindível que essa realidade mude, pelos riscos que traz tanto a integridade das pessoas quanto ao desenvolvimento da sociedade.      Em primeiro plano, importa discutir o quanto o modelo de educação do país reforça o preconceito linguístico resistente na nação. Nessa linha de raciocínio, é pertinente citar as ideias do filósofo Michel Foucault, segundo ele, em seu livro Microfísica do Poder existem diferentes mecanismos de opressão e dominação e a língua é um exemplo de dominação. Com base nisso, quando uma escola reconhece só uma língua como certa, ela se limita a conhecer só um aspecto da mesma, deixando de conhecer suas inúmeras variantes. No entanto, a ideia da fala padrão ser utilizada como verdadeira coloca suas variantes em posição de obsolescência o que acaba por ocultar a formação cultural do país que é composta por diferentes falas.

Outrossim, vale evidenciar que o preconceito linguístico é influenciado pelo enraizamento do pensamento de existir uma língua superior a outras. Nesse viés, cabe mencionar o que propõe o sociólogo francês Pierre Bourdieu, o qual afirma que “Aquilo que foi criado para se tornar instrumento de democracia direta não deve ser convertida em mecanismo de opressão simbólica”. Interpreta, assim, que, a língua como instrumento democrático deveria ter a finalidade de igualar povos e não influenciar a segregação social, inclusive marginalizando classes e criando estereótipos. Sob essa ótica, devido algumas pessoas considerarem certos jeitos de falar mais valorizados socialmente que outros, é nítido a estratificação social que decorre do preconceito linguístico.

Diante do exposto, medidas são necessárias para mitigar a problemática. Para isso, é imprescindível que o Ministério da Educação aborde nas escolas de forma mais intensiva e realista, em forma de palestras, temas que falem sobre a importância da variação linguística na formação do país, no intuito de incentivar o respeito aos alunos e o uso democrático das variantes. Ademais, mídias socioeducativas devem realizar programas que falem sobre a contribuição das falas presentes como  percussoras da riqueza sociocultural do Brasil, de forma que possa ampliar e desenvolver o uso delas sem nenhuma discriminação entre as pessoas. Sendo assim, de acordo com Bourdieu, a língua poder-se-á ser um instrumento de democracia.