Preconceito Linguístico
Enviada em 02/06/2020
Segundo Marcos Bagno, professor e autor do livro “Preconceito Linguístico: o que é, como se faz”, não existe uma língua certa ou errada, mas existem maneiras adequadas ou inadequadas de falar, dependendo do contexto. Em contrapartida, o preconceito linguístico, ou seja, toda discriminação às variedades linguísticas, está enraizado em questões culturais e sociais cotidianas da sociedade. Além do que, muitas pessoas não reconhecem o caráter dinâmico da língua, que evolui ao longo do tempo. Nesse sentido, mostra-se necessário analisar suas principais causas e promover possíveis soluções para esse impasse.
Em primeira análise, o Brasil, um país continental considerado de ampla cultura, possui notáveis diferenças nas falas de cada região. As variantes faladas no Nordeste, por exemplo, divergem das faladas no Sul. No entanto, há resistência por parte da população, a qual lhe é atribuída um pensamento que se inicia nas escolas: aquele que considera apenas um único jeito de falar para se expressar na língua portuguesa. Porém, existem diversos falares: os regionalismos, as variações etárias e as sociais, o que contribuem para a riqueza do idioma. Assim, quando a escola valoriza apenas a gramática tradicional, está se limitando a reconhecer apenas um aspecto da linguagem.
Ademais, as representações ridicularizadoras pela mídia sobre, por exemplo, os falares de nortistas, nordestinos, até mesmo de membros do movimento funk ou hip hop contribuem para essa construção limitada de linguagem. Nesses casos, língua tem sido um instrumento de poder, o que está dentro da área do filósofo Michel Foucault, que escreveu o livro “Microfísica do Poder”, onde aborda sobre os diferentes mecanismos de opressão, sendo um deles a língua. Segundo ele, quando se humilha alguém a partir da sua maneira de se expressar, humilha-se todo um grupo social. Logo, esses indivíduos não têm sua cultura e língua reconhecidas , ou seja, torna-se, também, preconceito social.
Fica claro, portanto, a necessidade de medidas que promovam o reconhecimento e respeito pelas variações linguísticas em território nacional. Para isso, cabe às escolas abordar o tema do preconceito linguístico de uma maneira mais intensiva e realista, usando exemplos do cotidiano. Assim, garantir a desconstrução da intolerância na mente do aluno sobre tais abordagens, de modo a situar melhor este na realidade em que está inserido. Além disso, a mídia deve cumprir com a função de realizar programas e debates que informem sobre variação linguística e sua contribuição para a identidade do país. Dessa forma, será possível preservar tanto a liberdade de fala dos brasileiros quanto as variantes no idioma que enriquecem a nação.