Preconceito Linguístico

Enviada em 14/06/2020

Em 1988, Ulisses Guimarães promulgou a Carta Magana e estabeleceu como um dos objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil promover o bem de todos independente de quaisquer formas de discriminação. Todavia, preconceito linguístico presente na nação verde-amarela demonstra que a premissa de Guimarães está distante de se tornar realidade na sociedade contemporânea. Com efeito, a solução desse problema passa pela desconstrução da imposição do uso da normal gramatical e pela valorização do regionalismo.

Em primeiro plano, a concepção de obrigação do uso da norma gramatical favorece o preconceito linguístico e deve ser desconstruída no país.  Nesse viés, a filosofa Simone de Beauvoir disserta sobre o fenômeno da invisibilidade que diz respeito à indiferença com a qual as populações marginalizadas são tratadas. Ora, a ideia de Beauvoir relaciona-se com a discriminação pelo uso da linguagem, uma vez que substancial parcela da sociedade brasileira é vítima do descaso do Estado  e não possui acesso à educação formal. Desta forma, esses indivíduos são invisibilizados por não desfrutarem de condições para o aprendizado da língua padrão lecionada nas escolas, e assim são subjugados pela outra parte de população que não reconhece esse grave problema social. Assim, não é razoável, que, em pleno século XXI, ocorra no Brasil segregação pelo uso da fala afastada da norma padrão.

Ademais, o emprego do regionalismo na linguagem oral colabora para valorização da diversificação sócio-cultural no processo de comunicação. Nesse sentido, a Constituição Federal - em seu artigo 216 - apresenta que se constitui como patrimônio cultural do provo brasileiro as formas de expressão, inclusive na linguagem oral. Nesse contexto, em tese, pelo próprio texto constitucional cabe ao Estado e a sociedade respeitar, promover e valorizar as variações linguísticas do Brasil. Logo, não deveria haver espaço na nação verde-amarela para críticas, esteriótipos e inferiorização social destinadas às pessoas que fazem uso da linguagem regional para se comunicarem. Pois, não é coerente, que o desrespeito a linguagem não formal persista em um país que almeja tornar-se desenvolvido.

Portanto, para garantir a proposta de Guimarães, as escolas devem, com urgência, desconstruir a ideia de obrigatoriedade do uso da norma gramatical em todas as formas de comunicação e demonstrar a importância do regionalismo para o processo de formação da língua, por meio de seus professores, a fim de combater o preconceito linguístico. Por sua vez, cabe ao Ministério da Educação ampliar as condições de acesso às escolas, por intermédio de parcerias com as Secretarias Estaduais e Municipais de Educação, para que todos os cidadãos tenham igualdade de condições à educação, como forma de compreenderem o valor das diversas manifestações de linguagem da nação brasileira.