Preconceito Linguístico
Enviada em 11/08/2020
O livro “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, conta a história de retirantes nordestinos, que fogem da seca. No enredo, Fabiano, chefe da família, sente-se como um animal, por não ter domínio da língua padrão. Nessa obra é notório o preconceito linguístico ainda evidente no Brasil. Nesse contexto a extensão do país, rico em culturas e povos, e os esteriótipos pejorativos contribuem para a ideia errada e intolerante a variantes linguísticas.
Inicialmente, sabe-se que o Brasil é um país de várias culturas, onde povos nativos, africanos e europeus contribuíram para a construção de uma identidade complexa. Entretanto, existe uma valorização exacerbada a norma culta da língua portuguesa, que exclui as modificações trazidas principalmente das áreas rurais e das classes sociais mais baixas. Essa lógica tenta definir o que é certo e o que errado. Pórem não existe isso no português. Infelizmente, o conhecimento da gramática tem sido usado como instrumento de distinção e dominação. Dito isso, aqueles que falam diferente do imposto nas escolas são condicionados a uma realidade inferior e submissa por não serem considerados dominantes da “linguagem certa”.
Além disso em “Jeca Tatu”, livro de Monteiro Lobato, o protagonista é uma construção caricata do homem campesino, representação do atraso que convencionou-se associar ao falar caipira. Nesse sentido, é perceptível, ainda na atualidade, a difusão de tais estereótipos pejorativos. Dessa forma, os livros, filmes e mídias contribuem para a inferiorização dessas pessoas, vistas muito vezes como burras. Esse preconceito e ignorância sobre a língua viva e mutável exclui, priva e degrine aqueles que falam diferente do padrão. Entretanto, ninguém tem o direito de humilhar o outro pela forma de falar.
Fica evidente, portanto, que a língua é um fator decisivo na exclusão social. Por isso, o preconceito linguístico deve ser admitido e combatido. Em primeiro lugar, as escolas deveriam debater sobre o tema, além de ensinar, nas aulas de Português e todas as variantes existentes na língua. As mídias e os autores devem parar de estereotipar os personagens de acordo com a sua maneira de falar e poderia investir em campanhas que ajudem a desconstruir o preconceito linguístico. Afinal, ser um “bom” falante é ser poliglota na própria língua.