Preconceito Linguístico
Enviada em 01/07/2020
Em “Vício na fala” e “Pronominais”, poemas de Oswald de Andrade, o poeta modernista, ao defender a liberdade da língua portuguesa no que há de mais espontânea e brasileira, critica a linguagem pomposa e artificial de certos cidadãos e literatos. Esses dois textos literários deflagram, magistralmente, a emancipação linguística e cultural, propondo a renovação de mentalidade artística em plena Semana de Arte Moderna de 22. Passados quase cem anos das conquistas advindas desse movimento artístico, percebe-se, no entanto, que a persistência de preconceito linguístico no Brasil tem como fator principal todo juízo de valor negativo às variedades de linguagem de menor prestígio social.
Primeiramente, o repúdio linguístico origina-se de uma construção escolar, social e midiática que considera a existência apenas de um jeito de falar, muitas vezes proveniente da gramática normativa, sendo esse o único e possível de se expressar. Segundo o linguista Marcos Bagno, em seu livro “Preconceito linguístico”, historicamente, a língua privilegiada, no contexto social, é aquela escrita ou falada pelas classes detentoras do poder. Para o professor, outras vertentes desprivilegiadas como, por exemplo, as do nortista, as do nordestino, as do indígena são desprezadas e sofrem desprezo social. Desse modo, foi contra esse olhar elitista que o poeta Oswald de Andrade se opôs em várias obras, contrapondo, em sua arte, a um olhar passadista e preciosista do Parnasianismo e defendendo a língua do povo e sua brasilidade, a exemplo, do uso da próclise em vez da ênclise e da mesóclise.
Ademais, a língua é um instrumento de poder, porquanto esses diferentes falantes não têm, muitas vezes, sua cultura reconhecida. Nesse sentido, Pierre Bourdieu, sociólogo francês, esclarece que, na sociedade, a bagagem linguística dos cidadãos marginalizados socialmente é descartada, ou, pelos menos, negligenciada por não representar o capital cultural da classe dominante. Assim, é muito comum que indivíduos poucos escolarizados, por exemplo, sintam constrangidos diante de um cidadão mais escolarizado que teve seus conhecimentos acadêmico e cultural reconhecidos pela elite.
Portanto, com vistas a diminuir o assédio e a marginalização no uso da linguagem de certos grupos sociais, o Ministério da Educação e a Secretaria Especial de Cultura deverão criar campanhas educativas e artísticas que privilegiem as variadas possibilidades da língua brasileira como construção plural de hábitos e de costumes e que atuem na desconstrução da hegemonia de um único modo de representação linguística tanto no universo da escola como das artes. Esse projeto será realizado por meio de vídeos, animações, documentários, peças de teatro que sejam apresentados, especialmente, em escolas, para toda a comunidade escolar a fim de as gerações atuais construírem um novo olhar sobre as ricas possibilidades de sua língua tal qual pensou Oswald de Andrade em seus poemas.