Preconceito Linguístico

Enviada em 21/07/2020

O filme “Cine Holliúdy” retrata a variedade linguística em parte do território brasileiro, nele seus personagens principais buscam mudar o cenário atual que enfrentam com a chegada da TV, e as telenovelas estrangeiras, que acabam por colocar os cidadãos da pequena cidade em um transe de “refinamento” onde os mesmos passam a julgar a maneira na qual as pessoas da região se expressam. De forma análoga, o mesmo se passa fora das telas, na realidade do cotidiano. Tal situação nefasta, ocorre não somente pela falta de reconhecimento da variedade linguística como um enriquecimento cultural, mas também pelo constante estereótipo negativo de quem o fala.

Em primeira análise, não é difícil reconhecer o Brasil como um país rico culturalmente nas mais diversas formas. Em consonância com a socióloga Laura Jonas, se somos capazes de apreciar a diferença da culinária do Nordeste para a do Sul, o que nos torna incapazes de reconhecer e apreciar a variedade linguística como parte do enriquecimento cultural de diversas outras regiões? Essa questão levanta preconceitos estruturados na sociedade em relação ao falar. De tal forma que esta passa a ser utilizada como objeto de segregação entre aqueles que supostamente possuem mais ou menos conhecimento, ignorando o fato de que a linguagem é cultural, diversa, se cria e se transforma a todo momento.

Paralelo a isso, se tem os estereótipos constantes da variação linguística que funcionam como alimento para a xenofobia. A exemplo, se tem o programa Zorra Total, onde a personagem Valéria é retratada comicamente como uma mulher pobre, nordestina e que se opõe completamente a linguagem culta. Infelizmente, quadros e situações como essa são abordagens comuns no humor brasileiro, inconsciente do quanto são nocivas e prejudiciais. De tal modo que acabam apenas por saciar o pensamento popular de que pessoas como Valéria são inferiores, e suas diferenças expressas pela vivência em outro ambiente cultural e regional são motivo de risada.

Depreende-se, portanto, que para mudar essa situação é necessário ir na raiz onde cresce o problema. Cabe, então, ao Ministério da Educação, aumentar as discussões ainda em ambiente escolar sobre a diversidade e variação linguística, por meio de parcerias público-privadas, que promovam palestras interativas e feiras educacionais, voltadas a introduzir as diferenças culturais do território brasileiro, contando com a presença de pais e membros da comunidade. Além disso, é preciso que a mídia como principal formadora de opiniões, por meio de sua programação, mude a forma pejorativa na qual retrata tais personagens unicamente para provocar risadas. Espera-se, com o conjunto dessas ações, moldar uma sociedade que reconheça sua riqueza cultural, se tornando, assim, mais inclusa as diferenças.