Preconceito Linguístico

Enviada em 08/08/2020

O Modernismo brasileiro, amplo movimento cultural que repercutiu no século XX, tinha como uma das suas características mais marcantes a tentativa de valorizar os falares regionais e populares. Entretanto, essa característica modernista mostra-se distante, na medida em que o preconceito linguístico se perpetua e representa um grave problema a ser desconstruído, tendo em vista que acarreta a infração da dignidade do indivíduo e a exclusão da linguagem regional.

Em primeiro plano, o assédio linguístico fragiliza a dignidade humana das vítimas. A esse respeito,  em 1948, a ONU estabeleceu que o principal direito de um indivíduo é a sua dignidade, previsto pela Declaração Universal dos Direitos Humanos. Ocorre que os frequentes discursos de ódio acerca das variantes linguísticas consideradas de baixo prestígio vão de encontro ao que as Nações Unidas declaram como indispensável, tendo em vista que tal fato viola a moralidade da pessoa. Assim, é incoerente que, mesmo sendo multicultural, o Brasil ainda mantenha vivo o preconceito linguístico.

De outra parte, persistem os esteriótipos sobre a variantes linguísticas negligenciadas socialmente. Nesse contexto, o filósofo Mikhail Baktin ensina, em sua obra “Carnavalização da sociedade”, que o riso é capaz de desconstruir um grupo marginalizado e reafirmar o preconceito. Esse problema assume contornos específicos no Brasil, uma vez que a mídia costuma atribuir caráter lúdico aos falares sociais e regionais de baixo prestígio - sobretudo nordestinos -, o que colabora para a opressão da linguagem e manifesta na prática a carnavalização de Bakhtin. Dessa forma, enquanto os esteriótipos mantiverem-se, o país será obrigado a conviver com um dos mais graves problemas para o Estado democrático de direito: a exclusão linguística.

Torna-se evidente, portanto, medidas as quais mitiguem a intolerância linguística. Nesse sentido, os cidadãos devem repudiar a inferiorização das variantes consideradas de baixo prestígio, por meio de debates nas mídias sociais capazes de combater, com urgência, a prevalência de uma variação sobre as demais, a fim de desconstruir ideias preconcebidas e assim, garantir a dignidade do indivíduo. Ademais, o Ministério Público, por sua vez, pode promover denúncias contra atitudes que menosprezem os registros da linguagem de grupos historicamente excluídos, por intermédio de ações judiciais avaliadas com prioridade, como deveria ocorrer com todas as formas de discriminação. A inciativa do MP teria a finalidade de estimular, no século XXI, a valorização linguística proposta pelo movimento modernista.