Preconceito Linguístico
Enviada em 30/07/2020
“Ninguém respeita a constituição,mas todos acreditam no futuro da nação”. O trecho da canção “Que país é esse”, da banda Legião Urbana, nunca esteve tão atual. Embora o artigo 215 da constituição de 1988 defenda a valorização da diversidade étnica e regional, ainda percebemos que muitas pessoas são alvo de preconceito linguístico. Esses indivíduos enfrentam críticas e ridicularizações ,vítimas de um cenário persistente na sociedade brasileira, que deve ser combatido de forma veemente e suas causas analisadas sob aspectos histórico-culturais e educacionais.
Em primeiro plano, é preciso ressaltar que o preconceito linguístico é uma herança nefasta do processo histórico-cultural de colonização brasileiro. Isso porque a repressão dos falares indígenas era uma das formas de garantir a hegemonia lusitana,caracterizando o início de um processo de discriminação linguística. Ademais, por muitos anos, a educação esteve restrita às camadas médias e altas urbanas, sendo o acesso à gramática normativa algo extremamente elitizado. Tal fato contribui para tornar a língua um verdadeiro instrumento de domínio e opressão sobre as camadas menos escolarizadas. Michel Foucault, filósofo francês, em sua obra " Microfísica do poder", discute esses mecanismos de dominação das sociedades e, nessa perspectiva,a língua pode ser uma dessas ferramentas. Quando se humilha um falante pela sua forma de expressar, humilha-se todo um grupo social e todo preconceito linguístico, no fundo, é também um preconceito social.
A questão histórico-cultural não é, contudo, o único problema. A manutenção desse tipo de preconceito é consequência direta do modelo de ensino da língua em boa parte das escolas brasileiras. O ensino da norma culta ,muitas vezes, é lecionada sem a devida abordagem à heterogeneidade e multipolaridade da língua. Além disso, muitos profissionais da educação estão despreparados e ridicularizam os diferentes regionalismos e sotaques dos alunos, levando a vítima à insegurança linguística e até mesmo problemas psicológicos. Segundo o filólogo Marcos Bagno, em sua obra “Preconceito linguístico: o que é, e como se faz, não existe língua certa ou errada, mas sim maneiras adequadas e inadequadas de falar, dependendo da situação comunicativa, do contexto.
Fica claro, portanto, que o preconceito linguístico persiste na sociedade brasileira e deve ser desenraizado. Nessa perspectiva, as escolas, com o objetivo de conscientizar pais e alunos sobre os diferentes falares do Brasil,evidenciando a importância e o respeito à diversidade linguística e seus regionalismos, deve incentivar o contato com a heterogeneidade da língua .Isso poderia ser realizado em aulas de linguagens e por meio de debates com a participação da família, grêmios estudantis e associação de pais e mestres. Talvez assim, aos poucos,possamos erradicar esse preconceito.