Preconceito Linguístico
Enviada em 17/08/2020
Na obra “Ensaio sobre a cegueira”, o escritor José Saramago sinaliza, metaforicamente, uma crítica ao individualismo através de um processo epidemiológico de perda de visão que atinge toda uma comunidade. No Brasil, por exemplo, essa incapacidade coletiva de enxergar é vista na indiferença de parte da população frente ao preconceito linguístico. Todavia, cabe analisar os avanços e desafios que circundam essa questão no país.
Antes de tudo, pontua-se que o Poder Público tem mostrado uma certa funcionalidade perante o enfrentamento do preconceito linguístico. Como prova disso, vê-se a eficiência das instituições governamentais ao direcionarem verbas para a manutenção, no curso de licenciatura em Letras das universidades públicas, da formação de profissionais especializados em Linguística, o que beneficia o estímulo ao respeito às variantes populares do idioma e, com isso, a consolidação do direito à cidadania dos usuários dessas. Desse modo, certifica-se que, em determinada medida, o bem-estar de toda a coletividade tem sido assegurado, demonstrando a consolidação dos princípios presentes na Constituição Federal de 1988.
No entanto, observa-se que uma parcela da sociedade tem aceitado o preconceito linguístico, o que denota uma banalização do mal. Confirma-se isso, pela apatia de alguns indivíduos perante a ausência de fiscalização estatal, posto que, falta assegurar com mais rigor a efetivação do ordenamento jurídico que prevê a obrigatoriedade do ensino das variantes da língua nas escolas, sobretudo acerca da gramática internalizada -aquela dominada intuitivamente pelos falantes através da interação social- comprometendo, dessa forma, a integridade moral dos usuários do idioma que não tiveram acesso ao ensino das regras normativas daquela. A naturalização desse fato, corrobora os estudos de Hannah Arendt, pois, segundo a filósofa, o enfraquecimento da capacidade humana de discernir o certo de errado é resultado de um processo de massificação social.
Evidencia-se, portanto, que é preciso combater o preconceito linguístico. Para isso, é necessário que o Ministério Público solicite ao Poder Executivo um maior direcionamento de verbas que possibilite a ampliação das vagas oferecidas no curso de Letras pelo Ministério da Educação, a fim de fortalecer o incentivo ao respeito aos cidadãos que tenham seus direitos violados. Ainda, é fundamental que Organizações Não Governamentais, através de veículos midiáticos, promovam campanhas que visem estimular a mobilização coletiva para que se exija do Estado o cumprimento da legislação vigente, com o intuito de impedir que usuários da língua sofram preconceitos em relação as variantes as quais fazem uso. Sendo assim, seria possível restringir a negligência social à obra de José Saramago.