Preconceito Linguístico
Enviada em 28/08/2020
Na obra “Ensaio sobre a cegueira”, o escritor José Saramago sinaliza, metaforicamente, uma crítica ao individualismo através de um processo epidemiológico de perda de visão que atinge toda uma comunidade. No Brasil, por exemplo, essa incapacidade coletiva de enxergar é vista na indiferença de parte da população frente ao preconceito linguístico, o que compromete sua resolução. Todavia, cabe analisar os avanços e desafios que circundam essa questão no país.
Antes de tudo, pontua-se que o Poder Público tem mostrado uma certa funcionalidade perante o enfrentamento do preconceito linguístico. Como prova disso, vê-se a eficiência das instituições governamentais ao direcionarem verbas para a manutenção, no curso de licenciatura em Letras das universidades públicas, da formação de profissionais especializados em Linguística, o que beneficia o estímulo ao respeito às variantes populares do idioma e, com isso, a consolidação do direito à cidadania dos usuários dessas. Desse modo, certifica-se que, em determinada medida, o bem-estar de toda a coletividade tem sido assegurado, demonstrando a consolidação dos princípios presentes na Constituição Federal de 1988.
No entanto, observa-se que uma parcela da sociedade tem aceitado o preconceito linguístico, o que denota uma banalização do mal. Confirma-se isso pela apatia de alguns indivíduos perante a ausência de fiscalização estatal, posto que falta assegurar com mais rigor a efetivação do ordenamento jurídico que prevê a obrigatoriedade do ensino das variantes da língua nas escolas, sobretudo acerca da gramática internalizada -aquela dominada intuitivamente pelos falantes através da interação social- comprometendo, dessa forma, a integridade moral dos usuários do idioma que não tiveram acesso ao ensino das regras normativas. A naturalização desse fato corrobora os estudos de Hannah Arendt, pois, segundo a filósofa, o enfraquecimento da capacidade humana de discernir o certo do errado é resultado de um processo de massificação social.
Evidencia-se, portanto, que é preciso combater o preconceito linguístico. Para isso, é necessário que o Poder Executivo amplie as verbas destinadas a abertura de novas vagas no curso de Letras, visando possibilitar que profissionais especializados em linguística estejam presentes no ambiente escolar, a fim de fortalecer o incentivo ao respeito aos cidadãos e evitar que esses tenham seus direitos violados. Ainda, é fundamental que ONGs, através de veículos midiáticos, promovam campanhas que visem estimular a mobilização coletiva para que se exija do Estado o cumprimento da legislação vigente, com o intuito de impedir que usuários da língua sofram preconceitos devido às variantes que utilizam. Sendo assim, seria possível restringir a negligência social à obra de José Saramago.