Preconceito Linguístico
Enviada em 02/09/2020
No seriado estadunidense “That ‘70s Show”, o personagem “Fez” é humorizado por ser latino e não falar a linguagem inglesa adequadamente. Em contrapartida, no Brasil, o preconceito linguístico é evidente entre os próprios brasileiros, visto que apresenta vasto território nacional e grande diversidade cultural, os quais contribuem para o aparecimento de diversos dialetos dentro da nação. Dessa forma, a confusão entre língua e gramática tem como consequência a segregação social.
Em primeira instância, a língua é igualada à gramática de maneira errônea. De acordo com o linguista brasileiro Marcos Bagno, uma receita de bolo não é um bolo assim como a gramática não é a língua. Apesar da norma culta de escrita servir como base para o sustento do idioma, é imprescindível admitir que variações sejam inerentes à forma oral. Destarte, o sistema educacional brasileiro contribui para a perpetuação dessa problemática, pois enaltece o compêndio em detrimento da variação regional da língua. Logo, a escola não deve se limitar ao valorizar apenas a gramática, mas reconhecê-la como um dos aspectos da linguagem.
Por conseguinte, a língua pode atuar de maneira negativa, sendo uma das ferramentas de segregação social. Conforme o filósofo francês Michel Foucault, no conceito de “microfísica do poder”, existem diferentes mecanismos de opressão e repressão. Nesse sentido, a língua é um exemplo de dominação, tendo em vista que é possível ridicularizar um falante por causa da sua maneira de se expressar e humilhar, também, todo um grupo social. Em suma, julgar determinada fala superior às demais é um posicionamento ignorante em relação às múltiplas maneiras de comunicação no país.
Portanto, urge que o Estado conceba providências solucionadoras do preconceito linguístico no Brasil. Destarte, o Ministério da Educação deve modificar a abordagem escolar no estudo da gramática – nas aulas de Português do ensino fundamental –, por meio de materiais didáticos que apresentem exemplos de variações linguísticas no cotidiano de cada região do país, a fim de ampliar o conhecimento cultural dos alunos e mostrar que a rica variedade linguística contribui para a identidade nacional. Assim, o problema retratado no seriado estadunidense ficará apenas no âmbito ficcional.