Preconceito Linguístico
Enviada em 01/09/2020
Oswald de Andrade, expoente da literatura modernista nacional,no poema “Pronominais”, arquitetou sua reflexão poética a partir da valorização da variante popular da língua. Contemporaneamente, as relações sociais no país materializam antagonicamente o projeto do autor, haja vista o preconceito linguístico interpenetrado no cotidiano. Com efeito, esse inadmissível cenário persiste na sociedade brasileira como produto das influências metropolitanas e da intensa compactuação social.
Em primeira análise, a concepção de que há representações culturais superiores acentua o preconceito com as distintas oralidades. Esse fato decorre da vinculação dos atuais critérios de aceitação social ao acúmulo de capital, o qual se concentra sobretudo nas áreas metropolitanas, que influenciam a economia das demais regiões e desvalorizam suas raízes linguísticas devido ao sentimento de superioridade econômica e sociocultural. Nesse sentido, a coercitividade da padronização é destacada por Pierre Bourdieu em “Violência Simbólica”, o qual aponta que o destoante é inferiorizado, já que não segue os padrões impostos pelo discurso dominante, o que é visto com clareza na exclusão de falantes menos favorecidos de variantes da língua. Dessa forma, a tentativa de homogeneização da língua potencializa a inferiorização dos variados falares em diversos meios.
Ademais, a passividade do corpo social alicerça a persistência do preconceito linguístico na nação. Isso ocorre porque os cidadãos favorecem a perpetuação desse problema ao desvalorizar as variações do idioma, como gírias e sotaques, visto que as associam à precária escolarização e, assim, enaltecem apenas a norma padrão da língua ensinada nas escolas. Nesse contexto, o psiquiatra Carl Gustave Jung,em “Arquétipos e Inconsciente Coletivo”, reflete que o processo de sociabilização comportamental exerce influência sobre a formação de culturas, na medida em que o discurso da coletividade é capaz de perpetuar ideias e pensamentos. Desse modo, o menosprezo coletivo pela diversidade linguística constrói um ambiente cultural de repressão aos falantes de variantes linguísticas diferentes.
Portanto, a influência das metrópoles, em paralelo à compactuação da sociedade, consubstanciam o preconceito linguístico no panorama nacional. Nessa perspectiva, o Poder Executivo Federal, sob forma do Ministério da Educação, deve fomentar políticas públicas que destaquem a relevância das variações linguísticas, por meio da criação de materiais didáticos e projetos pedagógicos nas escolas que combatam a discriminação nesse meio, com a utilização de aplicativos e plataformas digitais para melhor contextualização da temática, a fim de construir uma conjuntura pautada no respeito à diversidade da língua. Destarte, a valorização da cultura brasileira promovida por modernistas como Oswald de Andrade poderá, enfim, tornar-se realidade aos falantes da língua portuguesa no país.