Preconceito Linguístico
Enviada em 08/09/2020
Na história da Turma da Mônica, Chico Bento é um menino do interior, caracterizado pela sua personalidade “caipira”, tanto como vive quanto na sua forma de falar. Propositalmente, nos gibis, as suas falas são representadas de forma coloquial, o que permite ao leitor evidenciar a maneira como o próprio personagem se expressaria, com suas expressões regionais e palavras sem o emprego da norma-culta da língua portuguesa. Fora dos quadrinhos, isso evidencia uma dentre tantas variações da língua expressas no Brasil desde sua formação que, comunalmente, por questões étnico-culturais e socioeconômicas, desencadeiam o preconceito entre os próprios cidadãos.
Em primeiro lugar, vale a análise acerca da construção do país e da linguagem “brasileira”. Para o pedagogo Paulo Ricardo Zargolin, “A miscigenação étnico-cultural foi a maior geradora de hipocrisia no Brasil”. Sob esse viés, pode-se analisar a formação da nação brasileira que, desde o século XVI, vem tendo contribuição de diferentes povos na sua estruturação e caracterização do que hoje se pode chamar de Brasil. Isso, consequentemente, foi o principal fator para o agravante predomínio de diferentes dialetos e sotaques que, infelizmente, têm corroborado com a enraização do preconceito gerado no decorrer da história brasileira.
Outrossim, é necessário destacar o preconceito direcionado às pessoas que não demonstram domínio da norma-culta padrão e a correlação que existe com a situação socioeconômica em que se encontram. Conforme dados obtidos pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), o Brasil ainda tem cerca de 11 milhões de pessoas, com idade a partir de 15 anos, que são analfabetas. Esse número, portanto, reflete a condição de uma parcela da população que, em grande parte, vivem em áreas periféricas da cidade e, consequentemente, fazem uso de uma linguagem mais coloquial e usual, com gírias e expressões, o que gera ataques e discriminação de certos indivíduos mais preconceituosos. Destarte, é imprescindível que o Estado tome providências acerca dessa problemática. O ministério da Educação, por meio da implementação de atividades extracurriculares e palestras, devem estimular os professores e pedagogos a ensinar às crianças sobre as numerosas variações dialéticas, a importância da evolução do idioma português e, também, o incentivo à tolerância das diferentes formas de expressar-se pela linguagem. Assim, como mostra Maurício de Souza com o seu personagem Chico Bento, as divergências linguísticas serão normalizadas e valorizadas pelo seu povo, não repudiadas.