Preconceito Linguístico
Enviada em 08/09/2020
Nas histórias em quadrinho da “Turma do Xaxado” escritas pelo cartunista brasileiro Antônio Cedraz, são retratados personagens tipicamente brasileiros que, apesar de representarem diferentes culturas e hábitos (como o linguístico) convivem harmonicamente, evidenciando a riqueza dessa diferença para cada membro do grupo. Para além dos quadrinhos, no Brasil, o respeito às diferenciações linguísticas é raro, dando lugar a um preconceito errôneo que desconsidera a fluidez e pluralidade cultural com a qual a língua portuguesa foi constituída, além de tornar o saber algo hierárquico, diminuindo o acesso e participação popular nos núcleos educacionais do país.
A diferenciação linguística no território nacional se deve à influência de diferentes povos na formação do povo brasileiro. Além dos colonizadores portugueses, dos indígenas habitantes da terra e dos africados escravizados, o Brasil recebeu um grande contingente de imigrantes, espalhados por todas às regiões, oriundos de diferentes países da Europa e da Ásia. Dessa forma, a língua portuguesa acabou sofrendo influência de todos os povos aqui presentes, estando em constante mutação a depender da região, absorvendo em seu vocabulário tais diferenciações. Outrossim, torna-se impossível determinar qual a forma correta da língua, posto que esta é um compilado de todas essas interferências.
Assim, o preconceito linguístico surge através de uma tentativa de hierarquizar a língua, adentrando às academias e tornando-as restritas apenas para aqueles que se adequam à norma imposta. Essa hierarquização compõe aquilo que o intelectual português Boaventura de Souza Santos define como colonização do saber. Esta, acaba sendo prejudicial, posto que a abertura para a contribuição de múltiplas narrativas, explorando as diferenciações que as complementam, tornam o material em estudo ainda mais rico e completo (de acordo com o intelectual). Com a descolonização, é possível integrar todos os cidadãos na construção educacional do país multifacetado, e não distancia-los educacionalmente como vem acontecendo.
Há de ser, portanto, vantajoso que o Ministério da Educação promova uma mudança curricular nas escolas de nível básico e médio, através de um projeto de lei a ser votado pelo poder legislativo, que vise incluir nos currículos escolares livros didáticos e materiais que envolvam diferentes referências linguísticas e culturais, explorando toda diversidade que o país oferece. Por conseguinte, os brasileiros em formação não irão absorver o preconceito linguístico enraizado, além de terem a oportunidade de se beneficiarem com a pluralidade cultural existente, do mesmo modo que é retratado por Antônio Cedraz com a “Turma do Xaxado”.