Preconceito Linguístico
Enviada em 15/09/2020
Na mitologia grega, Teseu derrotou o Minotauro ao portar apenas uma espada e um novelo de lã. Fora da ficção, o mito adapta-se à temática do preconceito linguístico. À luz disso, com o isolamento de populações ao longo do tempo, é natural ocorrerem variações nos idiomas e, da mesma maneira, a ramificação dos mesmos em novas palavras e formas de expressar a compreensão do mundo. Nesse espectro, tanto a manutenção de ideologias discriminatórias quanto a manifestação de desprezo decorrente de falsos patamares de importância entre os cidadãos merecem uma análise profunda.
A priori, cabe mencionar a máxima criada pelo propagandista de Hitler, Joseph Goebbels, na qual ele admite seu plano de convencimento: “Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade". Dessa forma, a prática da exclusão por conta do jeito de falar ou de escrever é mais uma dessas falsidades que são pintadas como normais e reais. Nessa conjuntura, teorias como o darwinismo social, de Herbert Spencer, e a democracia racial no Brasil, de Gilberto Freyre, caminham na mesma linha de polarizar a Humanidade entre “superiores” e “inferiores”, hierarquizando-a. Pois, o uso de uma linguagem culta em função de uma coloquial representa a remodelagem cíclica de um modo clássico de segregação.
A posteriori, as formas de submissão dos dominados em função dos dominantes variam com o decorrer dos séculos: dos patrícios e plebeus da Roma Antiga até a divisão entre burguesia e proletariado. Segundo Marx, a história dos seres humanos é a história da luta de classes. Paralelamente, verifica-se a permanência do preconceito por conta da linguagem, apesar da oscilação entre as facetas que tentam justificá-lo. Hodiernamente, a marginalização dos menos favorecidos nas cidades implicou na legitimação de espaços “públicos” não destinados a todos os indivíduos. Com isso, fica comprometido o acesso dos menos favorecidos aos mesmos ambientes que as elites frequentam em seu “lazer” consumista – como os shoppings, nos quais o uso do idioma serve como ingresso.
Logo, é mister que o MEC invista verbas públicas oriundas dos impostos - cobrados da própria população - em palestras de historiadores nos centros culturais - com o fito de conscientizar o povo de que, ao analisar o passado, torna-se possível evitar os mesmos erros no futuro. Outrossim, cabe ao Ministério da Cidadania promover medidas de distribuição mais igualitária de renda a fim de minimizar a discriminação linguística. Isso porque, ao terem melhores condições aquisitivas, as pessoas podem alcançar uma vida mais digna e uma melhor compressão sobre a riqueza linguística que as variações representam - motivo para orgulho e não para opressão. Conforme Paulo Freire: “Não há saber mais ou saber menos: há saberes diferentes”. Assim, por meio da espada da justiça e do fio de lã da sabedoria, os “Teseus” atuais hão de vencer o Minotauro da ignorância.