Preconceito Linguístico
Enviada em 14/09/2020
Durante o processo de colonização brasileira, uma das maneiras de garantir a hegemonia lusitana era assegurar que apenas a língua portuguesa fosse falada. Nesse sentido, as línguas oriundas do Brasil, por exemplo, o Tupi, foram quase que extintas. Dessa forma, gerou-se um ciclo em que práticas culturais não hegemônicas conspiram para a extinção de certos modos de falar, além de reforçar a exclusão de grupos populacionais como se observa na mídia e na sociedade.
De acordo com o filósofo Michael Foucault em Microfísica do poder, existem diferentes mecanismos de opressão e dominação, e a língua configura-se mecanismo de dominação. Na literatura, Graciliano Ramos em sua obra “Terra dos meninos pelados” retrata o preconceito sofrido pelo protagonista nordestino ao falar “vossa princesência” para se dirigir a uma princesa, sendo debochado pelos demais habitantes do reino. Dessa forma, fica evidente que, quando se humilha um falante a partir da sua maneira de se expressar, humilha-se todo um grupo social.
De igual forma, os aspectos sociais serão influenciados pela mídia na medida em que algumas práticas culturais, bem com a língua, serão mais valorizadas do que outras como afirma o sociólogo Pierre Bourdieu em “Capital Cultural”. Quando a mídia faz uma representação ridicularizadora dos indivíduos que vem do Nordeste, por exemplo, corrobora e facilita a homogeneização linguística. Segundo o livro “Preconceito Linguistico” de Marcos Bagne, toda intolerância gramatical é, no fundo, um preconceito social que deve ser combatido.
Em suma, entende-se que o remédio contra o preconceito linguístico está relacionado à outorga de reconhecimento positivo dos grupos desvalorizados. Para tanto, é necessário que as escolas abordem o tema em questão de uma maneira mais intensiva usando exemplos do cotidiano, rechaçando o “conteudismo”. A mídia, por sua vez, deve fazer programas para o público -que possam ser exibidos nas escolas- em novelas e jornais que informem sobre a variação linguística, a riqueza dessas variações e como os diferentes falares brasileiros contribuem para a identidade local. Afinal, a variedade é a base da nossa sociedade.