Preconceito Linguístico
Enviada em 03/09/2020
Na peça teatral “O auto da compadecida” o autor Ariano Suassuna mescla elementos regionais como a literatura de cordel, a religiosidade e as variedades linguísticas, expressas nas falas dos dois nordestinos João Grilo e Chicó, para exemplificar a relação direta entre os dialetos e a classe social de seu orador. Muito além da dramaturgia, a discriminação linguística é um mal que permeia nossa sociedade sendo fruto tanto de uma elitização da língua quanto da intolerância ao diferente. Tendo em mente que as variedades de dialetos são parte fundamental da expressão da cultura do povo brasileiro, faz-se necessária a discussão sobre os principais aspectos acerca do preconceito linguístico.
Precipuamente, é fulcral pontuar que o conceito de certo e errado quanto à oralidade é muito relativo e ainda que exista a ideia, principalmente da elite brasileira, de dissolver a heterogeneidade presente em terras tupiniquins, é necessário um contexto para seu uso. Nesse sentido, utilizar-se de uma linguagem formal para conversar com um amigo é tão inapropriado quanto um linguajar repleto de gírias ao dialogar com uma grande autoridade jurídica. Outrossim, é inquestionável a relação direta do preconceito com a desigualdade social, visto que o Brasil ocupa o 7º lugar de maior concentração de renda mundial, segundo relatório do Programa nas Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).
Em segunda análise, o preconceito linguístico vem muitas vezes disfarçado de outros como o socioeconômico, que canaliza nos membros das classes mais pobres e consequentemente com menos acesso à educação, o domínio de linguagens informais e de menor prestígio, além de criar um ciclo vicioso em que o cidadão menos favorecido não consegue romper a bolha da baixa instrução, o fazendo continuar sendo excluído socialmente. Outro tipo de preconceito intimamente ligado ao dialeto é referente aos regionalismos, a chamada xenofobia, endossado por comportamentos de “superioridade” de locais mais desenvolvidos em detrimento de outros marginalizados.
Assim, medidas exequíveis são necessárias para conter o avanço do preconceito linguístico no Brasil. Dessarte, com o intuito de mitigar práticas segregacionistas é mister que o governo federal, por meio do Tribunal de Contas da União direcione capital para o Ministério da Educação, que deverá reverter a verba em campanhas nas escolas, criando uma rede de informação, utilizando para isso as mídias como televisão e redes sociais, com o objetivo de propagar a ideia de adequação linguística, incentivando o uso da informalidade e formalidade oral e escrita a partir de uma análise do contexto requerido, retirando, consequentemente, o peso de certo e errado das diferenças entre dialetos. Dessa forma, espera-se diminuir a discriminação da linguagem, respeitando-se as individualidades dos quatro cantos do país, como o “dizer nordestino” dos emblemáticos João Grilho e Chicó.