Preconceito Linguístico

Enviada em 03/09/2020

“Andar com fé eu vou, que a fé não costuma faiá”. O trecho da música “Andar com fé”, do cantor e compositor Gilberto Gil, retrata o linguajar interiorano usado em diversas partes do Brasil. É sabido que, por mais que a Declaração Universal dos Direitos humanos garanta ao individuo a liberdade para se expressar conforme lhe convir, episódios envolvendo preconceito linguístico, apontam para uma sociedade perversa que frequentemente segrega os indivíduos devido à forma com que se comunicam, esquecendo-se dos benefícios que a diversidade traz a um país. Nesse contexto, entende-se que isso configura uma problemática a ser solucionada.

Em primeiro plano, é necessário reafirmar a importância de se manter as tradições linguísticas de um povo para que haja multiplicidade de culturas. “Gonê”, faixa inclusa no álbum “VIVAZ”, do rapper Filipe Ret, é usado como meio de composição sílabas invertidas, como: “Davi que guese, gonê!” o que significa: “Vida que segue, negô!”. Hodiernamente, a inversão de sílabas das palavras usadas pelo cantor carioca, deu-se durante o período da Ditadura Militar, onde moradores do bairro Catete, no Rio de Janeiro, usavam desse tipo de código para conseguir dialogar sem serem descobertos por militares. Logo, nota-se a criatividade e inteligência de uma comunidade que, durante um período de extrema violência, conseguiu desenvolver uma linguagem própria e usá-la á seu favor.

Por conseguinte, é válido mencionar que, raramente a pluralidade linguística tem seu devido valor e é respeitada. Como exemplo, cita-se o médico Guilherme Capel, que durante um plantão em um hospital de São Paulo, usou suas redes sociais para debochar de seu paciente através de um receituário no qual havia escrito: “Não existe peleumonia.”. Tal situação foi amplamente discutida nacionalmente e posteriormente, internacionalmente. Diante desse cenário, é inaceitável que indivíduos residentes em um país tão miscigenado como o Brasil carreguem consigo preconceito linguístico, visto que costumes e línguas diversas fazem parte da história do país desde o seu descobrimento.

Tendo em vista a premissa de Immanuel Kant de que “O homem é aquilo que a educação faz dele”, cabe, então, ao Ministério da Educação, investir em palestras educativas desde o Ensino Fundamental I até o Ensino Médio, que visem demonstrar a importância de se respeitar o vocabulário usado, independente de regionalização, para que num futuro próximo, episódios como o ocorrido no hospital de São Paulo, sejam escassos. Além disso, é de suma importância que o Estado veja e descriminação linguística como algo ilícito e invista em leis para punir os preconceituosos. Essas ações conjugadas garantirão o respeito à liberdade de expressão e à cultura, principio fundamental dos Direitos Humanos.