Preconceito Linguístico
Enviada em 08/09/2020
No livro “Jeca Tatu” de Monteiro Lobato, o protagonista foi construído de modo caricaturado, representando um falar que foge a linguagem normativa, de maneira que convencionou-se associar ao atraso do homem moderno. Não distante do universo literário, atualmente, percebe-se a expressão do preconceito linguístico, tendo em vista o uso da norma culta como meio de distinção social e marginalização. Diante disso, é certo que fatores socioculturais somado à questão educacional, no Brasil, corroboram a ratificação da intolerância.
Evidencia-se, a princípio, que a desigualdade socioeconômica salienta o preconceito linguístico. Isso porque, a hierarquização da língua pela elite culta expõe a face cruel da marginalização social advinda das variâncias linguísticas e da pobreza que exclui a parcela pobre, uma vez que o conhecimento da gramática normativa tem sido utilizado como mecanismo de opressão e inferiorização dos indivíduos que fogem a norma culta. Sob essa perspectiva, o psicólogo Vygotsky afirma que a linguagem é o fator que concerne ao homem a possibilidade de compreender e interpretar o mundo ao seu redor. Nesse sentido, privar os indivíduos das expressões pessoais e regionais, baseado apenas em uma visão elitizada da sociedade, é ceifar a criticidade e a manifestação das particularidades do cidadão.
Outrossim, cabe analisar que grande parte da população não recebe a educação necessária para enaltecer a diversidade dos falares brasileiros. Nesse ínterim, o esfacelamento da educação, sobretudo pública, contribuiu para a expressão do preconceito linguístico, posto que secundarizou as pautas voltadas a variância da língua em detrimento da perpetuação do baixo senso crítico do corpo social no que concerne à intolerância ao indivíduo que não segue a norma padrão da gramática falada. Nesse viés, o educador Paulo Freira afirma que a linguagem nunca é neutra, sendo passível de sofrer alterações ao longo do tempo e das diferentes realidades socioeducativas, não se justificando, assim, o preconceito linguístico.
Depreende-se, portanto, que o debate acerca da intolerância linguística é fulcral para o desenvolvimento do grupo. Nesse âmbito, o Ministério da Educação deve, mediante amplo debate entre Estado, sociedade civil e profissionais especializados, lançar um plano educacional interdisciplinar, com a destinação de verbas para melhorias nas instituições educacionais, com vistas a levar a educação às comunidades marginalizadas e ampliar o senso crítico da sociedade, mitigando, desse modo, o preconceito linguístico, devendo ser desenvolvido por meio de debates engajados e atividades lúdicas, visto que ações sociais coletivas têm vasto poder transformador.