Preconceito Linguístico
Enviada em 15/09/2020
A Primeira Fase do Modernismo na literatura brasileira defendia, entre outros conceitos, a liberdade linguística — tal preceito pode ser observado, por exemplo, no poema “Pronominais” de Oswald de Andrade. Diferente de tal movimento literário, na sociedade brasileira, há a discriminação contra certos modos de falar e de escrever. Nesse sentido, com o intuito de mais bem compreender o preconceito linguístico no Brasil, faz-se imprescindível analisar a falta de respeito frente a determinadas variantes da língua portuguesa e a sobrevalorização da norma culta como fator intensificador de tal condição.
Em primeiro lugar, convém ter em vista que muitos indivíduos desrespeitam a maneira do outro se comunicar. Segundo o escritor Franz Kafka, a solidariedade é o sentimento que mais bem expressa o respeito pela dignidade humana. Tal pensamento não é seguido por parte da população brasileira, uma vez que, por exemplo, conforme divulgado pela imprensa, em São Paulo, em 2014, um médico publicou em suas redes sociais uma postagem que ironizava o modo de falar de um paciente. Dessa forma, observa-se que parte da população brasileira além de não ter consideração pelo próximo, despreza-o, em razão da linguagem verbal deste.
Ademais, é importante considerar que a língua preconizada pela gramática goza de prestígio excessivo. De acordo com o filósofo Aristóteles, o homem é um ser social e a vida em sociedade é necessária tanto para a sua realização pessoal quanto para a sua busca pela felicidade. Nesse contexto, ao supervalorizar-se uma forma de se expressar, colabora-se para com a prática da exclusão social e, consequentemente, para com a insatisfação física e psicológica do indivíduo, uma vez que este seria considerado “inferior” aos demais devido a sua variante linguística. Dessa maneira, a sobrestimação da norma culta prejudica o bem-estar das pessoas que não a dominam.
É preciso, portanto, tomar medidas que amenizem a intolerância em relação a determinados falares. Para tanto, organizações da sociedade civil poderiam promover eventos em praças públicas para debater a importância da diversidade de maneiras de se comunicar para a identidade nacional, a fim de promover o respeito a todos os modos de se expressar. Outrossim, o Poder Legislativo poderia criar uma lei específica que repudie a discriminação linguística, a qual teria como punição a prestação de serviços à comunidade ou a entidades públicas, com o intuito de reduzir tal desrespeito. Dessa maneira, será possível viver em uma sociedade onde há liberdade linguística — assim como preconizado na Primeira Fase do Modernismo — sem julgamentos.