Preconceito Linguístico
Enviada em 03/09/2020
Com os zóio na educação
“E hoje nóis pega páia / nas grama do jardim / e pra esquecê / nóis cantemo assim”. Os versos da música “Saudosa maloca”, de Adoniran Barbosa, mostram, com o dialeto dos descendentes de italianos no Brasil, a diversidade linguística que há no nosso país. Ao mesmo tempo que quase todas as palavras estejam erradas, pela norma padrão da língua, a letra é de fácil entendimento. Isso por que a língua portuguesa não se resume à norma padrão, e quem acha isso está praticando o preconceito linguístico, ainda muito comum. É para validar essa diversidade que o nosso sistema educacional precisa ser readequado para que o preconceito linguístico seja combatido ainda no processo de formação escolar.
Primeiramente, é necessário ensinar ao aluno a diferença entre a língua coloquial e a formal. O sistema escolar, ao tentar impor um local de respeito, reprime a comunicação informal. Isso também se dá quando chamamos a norma padrão da língua de “norma culta”, sugerindo que tudo fora da norma é sem cultura, é barbárie. Com esses e outros fatores implantamos a ideia que o jeito que nos comunicamos no dia-a-dia está objetivamente errado. É imprescindível então que os professores de língua portuguesa mostrem aos alunos que é perfeitamente normal qualquer tipo de comunicação, e que o que os difere são as diferentes pressões socioculturais, que levam você a falar mais formalmente em um evento de trabalho, e mais coloquialmente num encontro com amigos.
Junto disso, é fundamental normalizar a diversidade linguística nacional. Onde um nordestino fala macaxeira, um gaúcho fala mandioca. Onde um gaúcho se refere a alguém como “tu”, um paulista se refere a alguém como “você”. Cada lugar, seja um estado, um bairro ou até uma geração, tem seus trejeitos socioculturais. O princípio de relativismo cultural, cunhado pelo antropólogo Franz Boas, chega para derrubar a nossa visão egocêntrica de que o diferente está errado. Não há cultura mais civilizada que outra, só existem culturas diferentes. Aulas debatendo os diferentes jeitos que cada um dos alunos se refere à itens do cotidiano é um bom exemplo de como trazer a ideia de não só tolerância como aceitação das várias culturas que existem ao nosso redor.
Em suma, o preconceito linguístico no Brasil tem que ser combatida ainda na formação escolar, readequando nosso sistema educacional, dando, por exemplo, aulas sobre variedades linguísticas e comunicação formal e informal. Assim, as músicas do sambista Adoniran não mais irão causar estranhamento, mas sim a felicidade de viver em um país tão múltiplo como o nosso.