Preconceito Linguístico
Enviada em 04/09/2020
O Modernismo, movimento literário, artístico e cultural que surgiu em 1922, tinha como um de seus objetivos a incorporação da linguagem coloquial em seu âmbito, a fim de romper com a estética clássica e parnasiana que vigorava na época. No entanto, quase um século após esse marco, observa-se que tal prerrogativa, no cenário hodierno, não tem recebido grande atenção, uma vez que o preconceito linguístico tem se tornado uma realidade cada vez mais presente no Brasil. Diante disso, é válido destacar que entre os fatores que condicionam essa problemática, encontram-se as raízes históricas do país, bem como as ideologias desenvolvidas socialmente acerca dessa temática.
Em primeiro plano, cabe salientar que a permanência dessa questão na atualidade está intimamente relacionada às raízes históricas brasileiras, haja vista que, durante o Período Colonial, os jesuítas, baseados em sua “missão civilizatória”, viam a necessidade de educar os nativos, afinal, consideravam seu modo de falar superior. Nesse sentido, além de contribuírem com o processo de aculturação desse povo, fortificaram uma relação linguisticamente preconceituosa que dura até hoje, o que vai contra um dos preceitos estipulados pela Constituição Federal, já que, em seu primeiro artigo, ela assegura promover o bem de todos os cidadãos, sem quaisquer formas de discriminação no que tange à procedência nacional.
Ainda nesse viés, é conveniente enfatizar, também, que entre os contributos que intensificam esse problema, destacam-se as ideologias formadas socialmente a respeito da maneira adequada do uso da língua, visto que, por grande parte da elite econômica e intelectual, apenas a gramática normativa é considerada correta. Entretanto, tal assertiva não deve se tornar uma verdade absoluta, tendo em vista que, conforme exposto pelo filólogo Marcos Bagno, em sua obra “Preconceito Linguístico”, todo juízo de valor negativo, de reprovação, de repulsa ou mesmo de desrespeito às variedades linguísticas de menor prestígio estimulam o fenômeno da exclusão e desigualdade social.
Em suma, urge que medidas sejam tomadas, com o intuito de minimizar a presença desse preconceito na sociedade. Dessa forma, cabe ao Estado, como mantenedor da ordem, progresso, leis e bem-estar civilizatório, propor um projeto que, desde os primeiros anos letivos, estimule o estudo das variantes linguísticas em instituições de ensino, mediante debates no Poder Legislativo. Tal ação poderia ser realizada por meio de mudanças no conteúdo programático da disciplina de Língua Portuguesa, com o intuito de que todos os dialetos sejam respeitados e considerados valores culturais. Com isso, pode-se almejar uma sociedade semelhante daquela retratada pelo Modernismo e que legitime os preceitos estipulados pela Constituição de 1988.