Preconceito Linguístico
Enviada em 08/09/2020
A obra “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, retrata a história de Fabiano e sua família, retirantes nordestinos fugitivos da seca e da miséria que assola a região, evidenciando o caráter bruto e ignorante do personagem, animalizado por não dominar a língua culta. Partindo desse viés, muitas pessoas são discriminadas por apresentarem uma linguagem diferente da gramática normativa, sendo ridicularizadas e vista de forma inferior por uma elite intelectual, fato lamentável que corrobora o preconceito linguístico existente. Logo, intensifica as disparidades socioeconômicas e propicia a alienação desses indivíduos, comprometendo sua cidadania.
Em vista disso, cabe analisar como a intolerância linguística promove a desigualdade socioeconômica. Sob essa ótica, o livro “Preconceito Linguístico: o que é, como se faz”, do filósofo Marcos Bagno, desconstrói o juízo de valor negativo ao abordar a inexistência de uma forma certa ou errada de se comunicar, já que a língua é mutável e representa a diversidade cultural de um povo, exemplificada nos dialetos, gírias e regionalismo. Contudo, a educação linguística imposta e valorizada é a norma culta, impedindo que as variedades informais sejam reconhecidas, o que ocasiona a exclusão social desses sujeitos e aumenta as disparidades. Dessa forma, reduz a possibilidade de emprego e consequentemente ascensão econômica, além de acentuar a divisão de classes.
Ademais, a aversão aos diferentes modos de fala restringe a cidadania, tornando-os indivíduos alienados. Nesse sentido, o filósofo Michel Foucault, em sua obra “Microfísica do Poder”, destaca que os saberes funcionam como mecanismo de dominação e opressão, com isso, quem detém a linguagem padrão controla e coagem os sujeitos inferiorizados. Aliado a isso, o preconceito linguístico limita a capacidade de expressão dessa minoria, que por vergonha ou receio de julgamentos alheios preferem se calar, deixando de discernir diante das situações, tornando-os vulneráveis e expostos a alienação como notado no personagem Fabiano. Por conseguinte, essas pessoas não participam ativamente da sociedade e têm seus direitos violados.
Portanto, o Ministério da Educação – já que é o órgão responsável pelo desenvolvimento da Política Nacional da Educação – deve destinar mais recursos financeiros para projetos de cultura e inclusão social que contemplem o ensino da adequação linguística, por meio de parceiras com instituições escolares e mídias, a fim de que a variedade da língua portuguesa seja reconhecida e respeitada por todos os indivíduos, desmistificando o preconceito. Dessa forma, o conhecimento romperá estereótipos de “língua correta”, garantindo a livre liberdade de expressão e minimizando as desigualdades entre as classes sociais brasileiras.